PORTUGAL: Segurança Social quer despejar cabo-verdianos em Setúbal

. Publicado em 11ª Ilha

É um caso evidente de falta de palavra das autoridades portuguesas. As promessas feitas em março deste ano para encontrar soluções para o alojamento dos moradores de uma antiga fábrica não se cumpriram. Uma fria carta da Segurança Social diz que pretende demolir o prédio a 30 deste mês e aponta aos moradores a porta da rua


 

O Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS) pretende desalojar várias famílias que ocupam um prédio devoluto na cidade portuguesa de Setúbal, na sua maioria cidadãos cabo-verdianos. O imóvel é uma antiga fábrica (Mecânica Setubalense).

Em carta datada de 11 de junho, o IGFSS informou os moradores que teriam de abandonar o imóvel imediatamente, já que pretende iniciar a demolição no próximo dia 30, sustentando a sua posição em relatórios da Câmara Municipal e da Proteção Civil de Setúbal que apontam para o estado progressivo de degradação do imóvel, nomeadamente a possibilidade de derrocada iminente da cobertura.

Os moradores, entre os quais crianças, estão desesperados, estando a esmagadora maioria deles desempregados e estranham que seja um instituto público ligado à Segurança Social que os pretenda despejar sem ter havido qualquer esforço em encontrar alternativas de alojamento.

Deputado visita moradores

Cansados de bater a várias portas, os cabo-verdianos ali residentes contactaram o deputado nacional Emanuel Barbosa (MpD) e pediram-lhe apoio para tentar sensibilizar a Segurança Social e a Câmara de Setúbal para o problema.

“Pediram o meu apoio e vou estar com eles este sábado”, disse Emanuel Barbosa ao JSN, acrescentando que “à primeira vista parece haver alguma abertura por parte da instituição proprietária do edifício” e que vai “sugerir aos moradores que constituam uma associação e recorram a advogado para os representar e em seu nome negociar”. O deputado pretende ainda solicitar a intervenção da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa.

Pároco exige respostas imediatas

A situação destas famílias tornou-se mediática em março deste ano quando o pároco local, Constantino Alves (na foto), exigiu “respostas imediatas” para as dezenas de moradores da antiga fábrica Mecânica Setubalense. Na ocasião, os moradores foram confrontados com cortes de energia e de águas. “É urgente, inadiável e necessário, encontrar uma resposta em dois tempos: uma resposta para as necessidades do imediato, mas também uma resposta, a médio prazo ou logo que seja possível, que vise a transferência daquelas famílias para outros locais”, disse o sacerdote responsável pela paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Aludindo a rumores que apontavam para a permanência naquele local de pessoas que se dedicam a atividades delinquentes, o padre Constantino alegou que “pode haver pessoas, portugueses ou imigrantes, que ali estejam com outras motivações, mas cabe às autoridades fazerem essa triagem e darem o tratamento adequado a cada agregado familiar, sendo certo que é necessário agir rapidamente” e considerou que as dificuldades destas famílias decorrem do flagelo do “desemprego e do trabalho precário”.

Promessas e conversa fiada

Também na ocasião, uma das moradoras, de nome Carla Barbosa, referiu que “a Segurança Social prometeu retirar daqui as pessoas que cá estão há mais tempo, mas essa promessa nunca se concretizou”. E, a propósito deste caso, o Ministério da Solidariedade, Emprego e da Segurança Social, que tutela o IGFSS estaria a “reanalisar” a situação destas famílias, nomeadamente, através do Centro Distrital da Segurança Social de Setúbal, tendo para tal a colaboração da PSP, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e da organização católica Cáritas Diocesana.

Por tal razão a estranheza dos moradores pelo anúncio de demolição é redobrada, parecendo que, afinal, as boas intenções não passavam de conversa fiada para iludir as pessoas.

Quem já manifestou não se comprometer com a situação é a Câmara Municipal de Setúbal, alegando ter cerca de dois mil pedidos de habitação para famílias carenciadas.

 

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