JOSÉ SILVA: Ministério das Comunidades não tem compromisso com a diáspora

. Publicado em 11ª Ilha

O novo coordenador do MpD-Itália traça um retrato da comunidade, critica a postura das autoridades cabo-verdianas, mas manifesta-se disponível para abrir um novo ciclo de relacionamento com a nossa missão diplomática. Quanto à prestação da ministra da Comunidades, diz tratar-se de uma das vozes fora de tom de uma orquestra que há muito perdeu o compasso, e manifesta a necessidade de novas políticas e de um novo rumo para o País


 

José Silva completa em setembro 49 anos. É natural de Nossa Senhora da Luz, São Vicente, e vive em Roma (Itália) desde 1983, altura em que completou 18 anos.

Já em Roma frequentou o 12° ano na Escola Portuguesa, enquanto trabalhava, à semelhança de muitos conterrâneos seus, que optaram pela via da emigração com o propósito de uma vida melhor. Entretanto, na impossibilidade de prosseguir os estudos, mas movido desde sempre pelo desejo de conhecimento e de progredir na vida, frequentou vários cursos no campo de Comunicação e Marketing, a sua área profissional.

A sua atividade profissional enquanto responsável comercial da empresa do setor de calçado Studio Malori, exige-lhe de uma permanente atualização no capítulo de conhecimentos profissionais. Um estudo aturado das novas tendências e dos novos fenómenos, uma caraterística muito sua que resolveu transportar para o terreno da intervenção política, para mais após a sua recente eleição como coordenador do Movimento para a Democracia em Itália (MpD-IT), funções que já havia desempenhado anos atrás.

José Silva conhece em profundidade a comunidade naquele país europeu, e o seu êxito profissional, construído em muitos anos de empenhado trabalho, é agora uma mais-valia colocada ao serviço dos nossos concidadãos.

Depois de anos de apatia, o MpD em todo o velho continente parece querer erguer a cabeça e intervir na vida das pessoas. A esse facto não é alheia a eleição de Emanuel Barbosa como deputado pelo Círculo da Europa e Resto do Mundo e o “ar fresco” que trouxe à intervenção política, numa lógica de proximidade com os cidadãos, que está a construir corrente e a entusiasmar e mobilizar militantes.

Crise abateu-se sobre a comunidade

JSN - No ano passado a nossa comunidade em Itália foi muito badalada, uma associação denunciou a existência de sem-abrigo cabo-verdianos, mas a embaixada negou tal facto. Afinal, há ou não cabo-verdianos a viver nas ruas? De que forma a crise afetou a comunidade?

José Silva - Em relação às declarações da senhora Ângela Teque, presidente da OMCV-Itália, que dão conta da situação dos nossos conterrâneos que se encontrariam em dificuldades e, no caso específico, da existência de cabo-verdianos sem abrigo e sem conforto de familiares e amigos, pessoalmente, não gosto de jogar aos números com a vida das pessoas. O que lhe posso dizer é que um cabo-verdiano que esteja a viver debaixo das pontes desta cidade, sem uma casa e sem “o pão-nosso de cada dia”, é uma ferida imensa que dói e deixa toda a comunidade cabo-verdiana chocada.

Como homem e como conterrâneo emigrante, quando deparo com estas situações fico verdadeiramente triste e desapontado, pois trata-se de um concidadão que viu interrompido o seu legítimo sonho de progresso e de construção de um futuro melhor para si e para os seus. Ou seja, frustração de um sonho de um bem-estar e prosperidade que, como todos nós, “bem pà torna bai”.

A crise económica, que aflige e morde este “nosso” velho continente, tem determinado no seio da velha Europa reunida grandes fluxos de homens e mulheres de países mais pobres da área euro para os países com uma economia mais avançada, provocando um excesso de mão-de-obra, em particular, daquela não qualificada, da qual os nossos conterrâneos fazem parte. Contudo, mesmo que a situação esteja difícil, aquele sentimento de pertença, de solidariedade e de “passa parola” que caracteriza toda a Nação cabo-verdiana está muito presente na nossa comunidade e muito tem contribuído para amenizar os efeitos desta grande crise. Associado a estas características está também a reputação e o bom nome que a nossa gente goza nestas terras de Dante e que continua a ser um fator de competitividade.

Ministério não está próximo das comunidades

Como avalia a prestação da ministra das Comunidades, Fernanda Fernandes?

Deveria ser um ministério mais próximo das comunidades cabo-verdianas, a avaliar pela designação. Sentimos que não existe aquilo que chamaria de compromisso com a nossa diáspora, no que concerne às políticas viradas para a emigração. O cabo-verdiano é, por natureza, um povo muito ligado à sua terra. Quando vive e trabalha fora, então, esta relação é ainda maior através de manifestações culturais e recreativas. Aliás, um aforismo que ilustra muito bem a forte ligação do cabo-verdiano ao seu torrão natal tem que ver, justamente, com um antigo e legítimo sonho, segundo o qual “se padacim de Cabo Verde, el cà tà dàl, el cà tà trocal”.

Esta máxima é, sem dúvida, um instrumento catalisador de demandas da proximidade com a terra, elo entre nós e o país que, no entanto, cresce, desenvolve-se e transforma-se, mas o Ministério das Comunidades ainda não está alinhado, nem com o aforismo, tão-pouco com o sonho de muitos conterrâneos. Quanto à avaliação do desempenho da ministra das Comunidades, Fernanda Fernandes, seria pouco elegante e vale o que vale, visto que, ela é “uma das vozes fora de tom”, duma banda que há muito perdeu o compasso.

Construir um novo futuro

Quais os principais problemas da nossa comunidade?

Os problemas são tantos, de tal sorte, que uma comunidade como a nossa é confrontada, agora, com o desafio de debruçar-se, de imaginar e refletir sobre que postura a adotar para fazer face ao conjunto de problemas que a afligem. Desde os velhos problemas, que ainda aguardam as suas resoluções, passando por um diagnóstico de atuais que precisam de soluções urgentes, sob pena de tanto nós como a nova geração de emigrantes, vermos o futuro comprometido, aqui na Itália. Nesta fase da nossa permanência neste país, devemos, urgentemente, encontrar respostas aos problemas dos cabo-verdianos radicados e construir perspetivas para juntos, construirmos nova esperança para Cabo Verde.

Quantos somos, em que condições vivem os nossos conterrâneos? Os mais jovens, os que por aqui nasceram, quais os seus sonhos, as suas aspirações? Qual a ideia que têm do futuro? Estas são questões que merecem, a meu ver, respostas coerentes e urgentes. E os mais velhos, os que vieram antes de nós, que hoje começam a sentir-se um pouco cansados e com as dores dos anos, depois de terem consumido a própria juventude a criar filhos, a fazê-los homens e mulheres, a cuidarem dos próprios pais, a ajudarem Cabo Verde no seu caminho de progresso e de desenvolvimento, quem cuida ou irá cuidar deles? Qual será o seu futuro? Mais do que nos fixarmos nos problemas, importa a vontade e a determinação em construir, imaginar e desenhar um novo futuro.

Embaixada deve estar ao serviço de Cabo Verde

Tem havido queixas de que as nossas representações diplomáticas são extensões do partido no poder e acusações de que o recenseamento eleitoral está emperrado. Qual a situação em Itália?

Bom, a minha avó, dizia-nos sempre “tud dor um dia tà cabà”. É evidente para todos nós, que vivemos na emigração, a constatação do uso/abuso de algumas embaixadas de Cabo Verde por esse mundo fora. A partidarização de algumas das nossas embaixadas parece ser um must e um limite do atual governo, assim como o recenseamento permanente, junto dos consulados, não tem sido mais do que a maior injúria para o cidadão emigrante.

Na qualidade de coordenador do MpD-IT, o meu primeiro compromisso, será encontrar o Embaixador de Cabo Verde em Itália. Considero de grande importância inaugurar um novo percurso assente em diálogo permanente com a Embaixada de Cabo Verde, enquanto instituição primeira, com o forte propósito de encontrar soluções e respostas às antigas e legítimas reivindicações que ferem o direito dos cidadãos emigrantes. A nossa representação diplomática deve estar ao serviço do bem servir cabo Verde e os cabo-verdianos.

Novo rumo para o País

Reassumiu a liderança do MpD em Itália com um discurso para a renovação do partido. Qual a sua linha estratégica para os próximos tempos? A ideia é sedimentar o partido junto da comunidade intervindo regularmente na vida das pessoas ou apenas um pretexto para mobilizar eleitores para 2016?

Pela primeira vez na longa história desta comunidade, foi elaborada e apresentada uma moção de estratégia aos cabo-verdianos residentes em Itália. Por conseguinte, são linhas gerais de uma visão de futuro, de um novo ciclo que avança; o início de um percurso, um novo percurso que percorreremos juntos rumo a um Cabo Verde onde todos se sentem felizes e engajados. Um novo ciclo onde iremos procurar o envolvimento de todos os caboverdianos. Uma nova visão do MpD em Itália, uma nova postura. Fazer política com as pessoas e para as pessoas. Daí que o envolvimento e a participação das pessoas determinam o êxito, a materialização do nosso sonho sonhado. Pode crer, meu amigo, que é um compromisso e um renascer livre, forte e confiante que firmaremos com MpD, assente nas nossas diferenças, pela força das nossas ideias, da nossa conduta e das nossas prioridades de quem gosta de gostar de Cabo Verde. Voltei para ficar, ficar o tempo necessário para reconstruir sonhos e esperanças nos corações dos homens e mulheres da nossa terra.

AAP

 

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