SETÚBAL: Padre Constantino indignado com cerco policial a Vila Maria

. Publicado em 11ª Ilha

O sacerdote católico, que desde a primeira hora esteve ao lado dos moradores (a maioria cabo-verdianos) considera que a polícia protagonizou “um tratamento desumano”. No entanto, a saída do bairro tem um lado positivo: “as pessoas estão muito contentes com a mudança, ficaram apenas tristes com o último dia”


 

O pároco da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Setúbal (Portugal) está indignado com o cerco policial à antiga Mecânica Setubalense (também conhecida por Vila Maria), onde residia uma grande comunidade cabo-verdiana. O padre Constantino Alves (na foto), que desde a primeira hora manifestou a sua ativa solidariedade aos moradores do bairro clandestino, disse estar-se perante “um tratamento desumano” protagonizado pela polícia na última quinta-feira.

Recordamos que a Polícia de Segurança Pública, com um efetivo de cinco dezenas de agentes, cercou um quarteirão inteiro para despejar os moradores, dando-lhe um curto espaço de tempo para pegarem nos seus haveres pessoais. Mais grave ainda, foi a própria Segurança Social, através do seu Instituto de Gestão Financeira, que solicitou a despropositada ação policial.

Moradores tratados como criminosos

“Com que imagem vão ficar as crianças nascidas e criadas naquele bairro quando no último dia que lá vivem são acordadas por dezenas de polícias, como se fossem criminosos”, interrogou-se o padre Constantino ao jornal português Público, acrescentando que o despejo foi efetuado de “forma brusca, reforçando o estigma e o preconceito e sem acompanhamento psicológico”.

O Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS), através da vogal do Conselho de Administração, Beatriz Imperatori, também veio a público desdramatizar a situação alegando que “a Segurança Social teve e tem as portas abertas a todos os moradores para todo o apoio que for possível. As crianças foram tidas em linha de conta. Escolhemos o período de férias exactamente para não afetar o desempenho escolar e as eventuais mudanças de escola”, argumentos que, no entanto, não conseguem ocultar a violência do despejo e o facto de só ter sido garantido alojamento à maior parte dos moradores por um período de 48 horas.

Desrespeito pela dignidade humana

Constantino Alves contou ao jornal que passou aquela dramática manhã a receber telefonemas de moradores “aflitos e tristes por não terem sido avisados de véspera” para poderem acondicionar os seus haveres. “A polícia tomou o bairro de assalto, deu apenas meia hora às pessoas para retirarem os bens essenciais, com o restante a ir parar a armazéns, isto é uma saída inglória, sem respeito pela dignidade humana”, sublinhou o sacerdote católico. No entanto, parece haver um lado positivo: “as pessoas estão muito contentes com a mudança, ficaram apenas tristes com o último dia”, referiu o padre Constantino, um elemento fundamental de ligação entre os moradores e as autoridades.

Casas já foram atribuídas

Segundo Beatriz Imperatori, 41 das 48 famílias identificadas pela Segurança Social têm já casa atribuída, faltando ainda resolver o caso de sete agregados. Mas boa parte das casas ainda não estão disponíveis, visto necessitarem de alguns arranjos, que a dirigente do IGFSS espera estarem concluídos ainda este mês ou em agosto. Até lá as pessoas terão de se ir desenrascando.

“Os restantes sete são casos individuais de pessoas que, de livre vontade, recusaram as casas que lhes foram atribuídas”, disse ainda Imperatori. Uma recusa que se prende com o facto de terem sido disponibilizadas casas fora de Setúbal, num caso até a 100 quilómetros de distância, com grandes inconvenientes para a vida das pessoas obrigadas a ficar longe da cidade onde viveram nos últimos anos e em localidades onde não têm laços afetivos e dificuldades de integração.

com Ricardo Vilhena/Público

 

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