PORTUGAL: Situação dos doentes evacuados continua a degradar-se

. Publicado em 11ª Ilha

A apreciação é feita pelo deputado Emanuel Barbosa que, este fim de semana, visitou pacientes caboverdianos hospedados numa pensão do centro de Lisboa. Atrasos no pagamento de subsídios, degradantes condições de habitabilidade, laxismo da embaixada e propaganda enganosa, são algumas das denúncias de viva voz ouvidas pelo parlamentar eleito pelo círculo da Europa


 

Pesem embora as várias denúncias públicas sobre a situação dos doentes evacuados em Portugal, a situação continua a degradar-se, como aliás confirmou o deputado nacional Emanuel Barbosa que, este fim de semana visitou uma pensão lisboeta (no Camões) que acolhe os nossos conterrâneos que procuram assistência médica naquele país.

“Fomos recebidos sem surpresa pelos doentes evacuados que sublinharam que as únicas visitas que recebem [de responsáveis políticos] são do MpD e do seu deputado para a Europa”, disse Barbosa ao JSN, adiantando ser “confrangedor reparar que o tempo passa e os mesmos problemas se repetem, mudam as caras, novos doentes chegam, mas enfrentam as mesmas dificuldades”. Dificuldades que considera serem fáceis de ultrapassar, assim haja vontade política.

“Laxismo” da embaixada

O deputado do MpD acentua que “o laxismo da nossa embaixada” é que tem permitido que os problemas persistam durante tanto tempo sem qualquer resposta dos poderes públicos caboverdianos. E dá como exemplo o caso de uma jovem mãe que acompanha a sua filha bebé e que, desde há três meses (o tempo em que já se encontra em Portugal), “ainda, não recebeu nenhuma mensalidade e na vinda não lhe foi avançado nenhum valor para fazer face às primeiras despesas”, enfrentando “enormes dificuldades financeiras” e “estando dependente da ajuda dos restantes companheiros que também passam por enormes dificuldades”, mas que “fazendo jus à morabeza crioula, dividem o pouco que têm”, sublinha.

“Esta jovem nos contou que quando a filha tem consultas no Hospital Dona Estefânia vai a pé, com a criança ao colo, do Largo de Camões até lá porque ainda não lhe deram passe e não tem dinheiro para pagar o transporte público”, diz ainda Emanuel Barbosa, acentuando tratar-se se um distância de mais de dois quilómetros, feita independentemente das condições atmosféricas.

Atraso no pagamento de subsídios

Aliás, segundo ainda refere o deputado, os atrasos de mais de três meses no pagamento das prestações aplicam-se à generalidade dos evacuados, acrescido de um “alojamento em condições indignas”, e “a situação bizarra de receberem apenas 20 dias de subsídios com a promessa de receberem os restantes 10 dias, que vão acumulando ao logo dos meses, quando regressarem”, ou seja, não transferindo o dinheiro na altura em que as pessoas mais precisam. “É o que eu chamo de poupança forçada de quem precisa de dinheiro como de pão para a boca, pois recebem apenas 49 euros por mês, dizendo a embaixada que lhes descontam 360 euros para pagar o quarto”, refere ainda Emanuel Barbosa.

Negociatas

No que respeita às pensões, Barbosa diz que “começa a despontar nos doentes o sentimento que venho denunciando: de que deve haver alguma negociata por detrás deste contrato com os proprietários das pensões, porque pelo valor que se paga consegue-se alugar apartamentos condignos para alojar 2 a 3 doentes”, o que poderá ser confirmado pelos valores cobrados no arrendamento de apartamentos na região de Lisboa. Efetivamente, segundo o JSN teve ocasião de apurar, por exemplo, na linha de Sintra (a 15 minutos do centro de Lisboa) consegue-se alugar quatro assoalhadas (sala e três quartos) por valores que medeiam entre os 500 e 600 euros. Isto é, um valor muito inferior ao cobrado a três hóspedes de uma destas pensões (1.080 euros). 

“Chegamos em cima da hora do jantar e ficamos de coração partido com a alimentação que vimos as crianças a fazer, claramente insuficiente para uma boa nutrição, ademais em situação de doença”, refere também o parlamentar, sublinhando que os evacuados sobrevivem com “algum apoio da Associação Girassol Solidário e do Banco Alimentar”, o que agradece, mas interroga-se: “com que direito o Estado de Cabo Verde transforma as pessoas que evacua para vir tratar da saúde em mendigos?”

Médicos ou funcionários do governo?

Ainda segundo Emanuel Barbosa, “outra situação que (…) foi retratada tem a ver com a junta médica, composta por médicos vindos de Cabo Verde, a que os doentes são submetidos”, porquanto os evacuados “reclamam que os médicos dos hospitais portugueses onde são seguidos passam-lhes relatórios que confirmam que necessitam continuar o tratamento, o que é contrariado pelos médicos caboverdianos”, havendo mesmo casos de clínicos que tendo-se recusado a assinar a alta médica, esta posteriormente aparece rubricada, não se sabendo por quem.

Doentes de segunda

Os evacuados afirmam, também, que “o governo faz propaganda enganosa” com a casa de acolhimento do INPS fazendo crer que está tudo bem com eles e denunciam haver “doentes de primeira e de segunda”, estes últimos no quadro da chamada promoção social.

Ações para “pressionar” autoridades

“O MpD-PT tem agendado um conjunto de ações, a serem desenvolvidas por forma a pressionar as autoridades caboverdianas a resolver de uma vez por todas a situação destes doentes”. A estrutura ventoinha pretende conferir dignidade a estas pessoas e vai envolver também autoridades de fiscalização e instituições portuguesas de solidariedade social e de defesa dos direitos humanos.

 

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