ESPANHA: Autoridades querem deportar filho de cabo-verdianos

. Publicado em 11ª Ilha

Na última sexta-feira, às 18h30 locais, a polícia de Leon pretendia deportar Conrado Semedo para Cabo Verde, mas o incumprimento de procedimentos legais adiou a expulsão. O jovem, 34 anos, nasceu em Espanha, ali sempre estudou e viveu, não fala português ou crioulo e não tem familiares no arquipélago. Um escândalo que está a provocar a solidariedade da comunidade local e o empenho da ONG SOS Racismo


 

Um filho de cabo-verdianos, Conrado Semedo (na foto), nascido em Espanha, apenas um dia após os seus progenitores se terem mudado de Portugal para aquele país, 34 anos atrás, pode ser extraditado para Cabo Verde. Conrado, que apesar de ali ter nascido não tem nacionalidade espanhola (apenas autorização de residência), estudou naquele país europeu, só fala espanhol e não tem familiares no arquipélago. O jovem foi detido após cumprir uma pena por um crime menor e colocado à guarda das autoridades até à expulsão de Espanha, porque o juiz o considera “um perigo” para a segurança pública por ter “antecedentes criminais”. Antecedentes que, no entanto, não passam de delitos de pequeno tráfico, supostamente tendo por fito custear o consumo próprio.

Imigrante na sua própria terra

Conrado Semedo nasceu na aldeia de Bembridge Berciano, na província de Leon e, três anos atrás, começou a cumprir uma pena pela prática de um crime de tráfico de estupefacientes – que chegou ao fim em Janeiro último -, uma moldura penal aplicada a um crime considerado menor (“pequeno tráfico”). À época do seu nascimento não era permitido aos imigrantes legalizarem os filhos nascidos em território espanhol, e os pais seguiram os procedimentos: registaram-no no consulado de Cabo Verde e Conrado ficou apenas com a nacionalidade cabo-verdiana. Ou seja, o jovem é considerado imigrante, embora não se saiba de onde migrou.

Durante o tempo que esteve em cumprimento de pena, foi intimado a renovar a sua autorização de residência e sua mãe, Tina Robalo, ainda tentou tratar da papelada em nome do filho, porém, tal não foi autorizado.

Em 14 de janeiro deste ano, Conrado terminou a sua pena e, um dia após o seu aniversário (assinalado a 19 de fevereiro, quinta-feira), foi colocado num centro de detenção para estrangeiros. Na sexta-feira, 21, tentaram metê-lo à força num avião, só não se concretizando a extradição porque o comandante da aeronave não foi previamente informado – como mandam as normas da aviação civil - e terá recusado transportá-lo.

Segundo a sua advogada, Beatriz Veja, de nada serviu a certidão de nascimento de Conrado, o seu registo escolar, o facto de ter emprego, de os pais terem casa própria na aldeia de Bembridge Berciano ou, ainda, de não falar português e crioulo, e de não ter familiares em Cabo Verde, um país que visitou uma única vez quando tinha 12 anos. Agora – se a decisão for confirmada -, está proibido de regressar a Espanha (o país onde nasceu) por um período de cinco anos.

O juiz foi implacável e desumano, rasgando, de facto, por despacho, as disposições internacionais sobre direitos humanos. De qualquer modo, a sua advogada apresentou um recurso da decisão e novo julgamento poderá ser marcado, sendo no entanto uma incógnita.

Mãe está desesperada

Tina Robalo, a mãe de Conrado, foi entrevistada, por telefone, pelo jornal espanhol El Diario, manifestando o seu desespero: "Estou devastada", disse, acrescentando que “ele fez algo errado, mas já pagou”. A mãe cabo-verdiana esclarece, ainda, nunca ter pedido nada a ninguém para criar os filhos e referiu que Conrado sempre trabalhou em obras ou como DJ.

A ONG espanhola SOS Racismo tem uma campanha em curso para o encerramento do centro de detenção de imigrantes, que acusa de ser um “campo de concentração” onde se violam os direitos humanos, e interessou-se particularmente pelo caso de Conrado Semedo.

Só a solidariedade da comunidade e a “pressão” sobre a Justiça espanhola, poderá impedir a deportação. Mas uma coisa parece evidente, o discurso europeu sobre direitos humanos revela-se como um farsa e, pelo que se vê, é apenas para os “outros” cumprirem.

No que respeita a Cabo Verde, é sabida a facilidade com que cidadãos europeus entram no arquipélago, sem terem de comprovar estar na posse de dinheiro para se sustentarem no país, nem precisarem de alguém que se responsabilize por eles durante a estada, ao contrário do que acontece com os cabo-verdianos que rumam à Europa. Uma relação desigual, de tratamento diferenciado, que parece não incomodar as autoridades nacionais sempre muito prontas a fazer mesuras aos “governos amigos”.

com El Diario

 

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