RAP: Nova música de intervenção onde "a raiva é a saliva da alma"

Escrito por Antonio . Publicado em Cultura

O sociólogo português Boaventura Sousa Santos, um académico de grande prestígio internacional, juntou rappers, alguns deles descendentes de cabo-verdianos, e ergueu o projeto "Há Palavras que Nasceram para a Porrada". O investigador desde há dez anos que tem produzido trabalho científico sobre a cultura hip-hop e o ativismo social urbano


 

O diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal), Boaventura Sousa Santos (na foto), juntou-se a vários músicos portugueses, alguns deles de origem e mesmo nacionalidade cabo-verdiana para dar corpo ao projeto "Há Palavras que Nasceram para a Porrada", que vai levar ao palco na “cidade dos doutores”, um concerto a 12 de julho. Investigador e músicos reafirmam o rap como “postura de resistência”.

Ao projeto de Sousa Santos, um sociólogo e investigador de renome internacional, juntaram-se Chullage (Nuno Santos, na primeira foto), Hezbollah (Jakilson Pereira), um natural da cidade da Praia, LBC (Flávio Almada, na foto), também nascido na capital de Cabo Verde, e Capicua (Ana Fernandes) e debateram três formas de domínio, “capitalismo, patriarcado e colonialismo” e, a partir desses tópicos, estava encontrado o mote para a criação das músicas que, em julho próximo, sobem ao palco em Coimbra.

Voz e palavra têm papel central

O universo da cultura rap há mais de uma década que é estudado e vivenciado por Boaventura Sousa Santos que encontrou nas caraterísticas deste género musical urbano a possibilidade de construir “uma crítica” partindo de uma base estética "onde a voz e a palavra têm um papel fundamental". O professor escreveu já um livro, editado em 2010, “RAP Global”, onde refere que a caraterística central desta expressão musical, onde “a raiva é a saliva da palavra”, decorre da necessidade de "expressar certos sentimentos, mobilizando as energias das emoções" e rejeitando a domesticação e mediação caraterísticas do trabalho de um sociólogo. Daí o desafio de Sousa Santos.

É que, refere o investigador, "enquanto as ciências sociais perdiam energia política, enquanto a esquerda perdia energia, estes jovens revoltavam-se e assumiam e assumem uma postura de resistência com dimensão artística", disse Boaventura à agência Lusa.

Rap ocupou espaço da música de intervenção

Segundo o professor, o rap ocupou o espaço que antes era da chamada música de intervenção. "Estes jovens insurgem-se e dizem: não somos pobres, somos empobrecidos, não somos inferiores, somos inferiorizados. Recusam a ideia de que não há alternativas e são importantes para uma sociedade tão empobrecida de coragem, de capacidade de desenhar alternativas", acentua Sousa Santos.

Capicua refere que este projeto faz abordagens como "o género ou a segregação urbana". Para esta artista-ativista o rap é "como um desporto de combate que cumpre um espaço importante na música de intervenção", sublinhando a conexão entre este género urbano e a sociologia, mormente na "desconstrução e questionamento das dinâmicas sociais, culturais e políticas".

A jovem refere ainda que vários rappers “ocupam o espaço deixado pelos cantautores”, numa lógica de expressão similar, onde “a música está ao serviço da palavra", manifestando-se com "preocupação política e uma responsabilidade social".

Para LBC, "os rappers são uma espécie de sociólogos" e sublinha ser o rap uma "forma de produção de conhecimento", socialmente “bastante estigmatizado”. Nesse sentido, o rapper sustenta ser "fundamental haver um diálogo entre a academia e o hip-hop, porque isso dá profundidade à própria cultura" e sublinha que"o trabalho de rappers portugueses não é diferente daquilo que Sérgio Godinho, Zeca Afonso ou José Mário Branco fizeram", numa alusão a três dos nomes mais importantes da canção de protesto em Portugal.

Chullage, LBC e Hezbollah são referências recorrentes em Portugal, mas também junto de jovens músicos cabo-verdianos do arquipélago que, para além da componente estritamente artística, vêm neles a voz de novos caminhos para o ativismo social e a construção de uma nova sociedade que não seja marcada pelas desigualdades e exclusão. Chullage e LBC que, refira-se, têm formação académica em sociologia e estão ligados ao projeto “Plataforma Gueto” (juntamente com Hezbollah), um dos mais ativos movimentos de afro-descendentes a atuar em Portugal e que, recentemente, teve um papel importante na solidariedade aos cabo-verdianos despejados do Bairro de Santa Filomena (na Amadora).

com Lusa/Sol

 

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