Como se um ser humano pudesse ser “ilegal”… – ou a segunda morte de Ibrahima/Alhfa

. Publicado em Editorial

Foi hoje a enterrar Ibrahima Cisse ou Alfha da Silva, como ontem aqui se referiu existem dúvidas sobre a verdadeira identidade do cidadão da Serra Leoa que, no último sábado (e decorrente de uma trombose fulminante), pereceu no Hospital do Tarrafal.

 

Regressou ao pó da terra, quase como veio ao mundo, sem nada de seu para além da modesta roupa que exibia nas ruas da cidade e se dava aos outros como pessoa educada e de bem, como um homem de trabalho e um lastro de vida com sacrifícios inimagináveis.

Ibrahima (ou Alfha) – pouco importa agora o verdadeiro nome – foi a enterrar como “indigente”, a expensas da autarquia local que nunca deixou de o acompanhar na doença e o fez partir deste mundo provavelmente com uma ideia mais prazenteira da tradicional morabeza e da enfatizada solidariedade dos cabo-verdianos. Uma morabeza e solidariedade que, em vida, o Estado de Cabo Verde nunca soube transmitir-lhe, pese embora a verborreia útil de exaltação das origens africanas deste povo – a conversa p’ra boi dormir que alguns políticos tanto gostam de debitar.

Contraditoriamente – e apesar de ter prolongado por duas décadas a sua estada entre nós -, Ibrahima/Alhfa teve sempre sobre si o ferrete de “ilegal”, como se um ser humano pudesse sê-lo, como se o mundo não fosse de todos os que o habitam e por essa diversidade pudesse ser ainda mais belo. 

Sim, porque o Estado de Cabo Verde trata da pior forma os imigrantes africanos, com o mesmo desprezo e/ou a mesma indiferença com que as autoridades de alguns países estigmatizam (em guetos psicológicos e fácticos) os emigrantes cabo-verdianos, numa lógica descartável de “serviu e deita fora”. Porque, verdade seja dita, não é só na Amadora que existem bairros de Santa Filomena, nem apenas em Boston que a xenofobia espreita às vezes entre as brechas fundas dos “direitos humanos” grafados em papel de parede…

A situação de “ilegalidade” do nosso irmão da Serra Leoa é uma ferida aberta, multiplicada por milhares, que só envergonha o Estado cabo-verdiano! Muito antes da sua morte física, as autoridades do país já haviam assinado a certidão de óbito da cidadania de Ibrahima/Alhfa que, desta indignidade, resultou morrer duplamente.

António Alte Pinho | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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