EDITORIAL: A liberdade de imprensa é uma grande chatice

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Não nos tolhe a consciência e, muito menos, nos afligem os ardis, as insinuações, as tentativas de condicionar a nossa liberdade e, muito menos ainda, a ameaça de vassouradas. Todas as investidas são para nós ataques de fisga, demonstrando estarmos no caminho certo e fiéis aos sagrados princípios do dever de informar e do direito dos leitores à informação


A sessão da Assembleia Municipal da Ribeira Brava, que hoje se iniciou para debate e votação do Plano de Atividades e do Orçamento para 2014, foi marcada por um momento infeliz (para não dizer outra coisa), quando o presidente da Câmara, confrontado com uma notícia do nosso jornal, referiu não a conhecer (o que, não sendo provável, é admissível) e adiantando, ainda, não conhecer o JSN, o qual epitetou de “jornal clandestino”… Ora, como já tivemos ocasião de referir noutro local, Américo Nascimento concedeu uma entrevista ao JSN em setembro, tendo esta sido publicada em meados de outubro, pouco depois de o jornal ser colocado online. Mais tarde, no entanto, na intervenção seguinte, corrigiu o epiteto ao referir (e citamos): “não sei que jornal se trata, deve ser algum panfleto do MpD que está na ilha”.

As declarações de Américo Nascimento indiciam, desde logo, alguma instabilidade cognitiva, porquanto o presidente hesita entre a “epitetagem” clandestina e panfletária, não parecendo decidir-se e ficando ali, entre uma e outra, parecendo que à espera de algum assessor – talvez a sua prestimosa assessora de imprensa - que lhe sopre ao ouvido a adjetivação certa para se referir ao incómodo de ter de conviver com a imprensa livre. Mas, por outro lado, independentemente do estado clínico do autarca – que, a ser grave, lamentamos profundamente -, as suas tiradas a propósito do JSN revelam, ainda, coisa mais grave: parece fazer parte da carga genética de “Meca” e de seus camaradas de partido (não todos, felizmente) a conceção de que a liberdade de imprensa é uma grande chatice. Ou seja, melhor seria que os órgãos de comunicação social fossem todos poisos de rapaziada ordeira, temente e reverente perante os poderes públicos e, já agora – para levar tudo a eito -, por que não apenas um partido, um corpo uno e firme dos “melhores filhos do povo”, dispensando-se esse outro incómodo que é a oposição.

Ignorar a imprensa – tentando despi-la de legitimidade – ou, mais grave ainda, epitetá-la de “panfletos” é uma velha técnica de velhos e novos déspotas, de fascistas e de autoritários de todos os matizes. A mesma palavra era utilizada, como ferrete estigmatizante, pela ditadura fascista de Salazar e Caetano, para quem jornal que não beijasse as mãos do regime era um “panfleto comunista”; ou, ainda - e aludindo a outras cambiantes ideológicas -, “panfletos da CIA”, como era comum afirmarem os “czares vermelhos” dos defuntos regimes autoritários do Leste europeu.

Para Américo Nascimento e seus pares – ao que nos contaram, até o Carlitos, seu ex-diretor de gabinete, nos terá prometido umas vassouradas (cá ficamos à espera do valentão) -, jornais a sério são aqueles reverentes e obrigados, de preferência ligados por laços ideológicos ou familiares, como é o caso do “NoticiaSN”, propriedade de “Meca”, por interposta pessoa de um filho, que - conforme já aqui também referimos - foi protagonista de uma atitude infame contra o nosso jornal ao apossar-se do título “Jornal de São Nicolau”, como está vertido no nosso Editorial de 12 de novembro, e citamos: “É bom de ver que tal atitude contraria todos os princípios da ética, das boas práticas de concorrência, para não dizer mesmo da moralidade e de uma sadia relação entre seres humanos. Os delinquentes que se apossaram do nosso título bem sabiam que o JSN era um projeto jornalístico emergente, com rosto e com uma clara linha de intenções e, através desse ato, procuraram dificultar, senão mesmo inviabilizar, um projeto de comunicação social que acrescenta à pluralidade de informação, logo à qualidade da Democracia”. Portanto, percebe-se que a intenção de nos menorizar, senão mesmo silenciar, é antiga, mesmo recorrendo a expedientes ardilosos!

Aliás, a este propósito, convirá referir a posição dos sócios do infante Nascimento (ou ex-sócios, como parece o caso). Quando confrontados com a safadeza feita ao JSN, respondeu assim um deles: “esta é uma situação [que] estou tendo conhecimento agora. Como já anunciamos varias vezes alguém tomou posse do site (…), e atualmente ele foi redirecionado para uma nova página (…). Acho que não estamos de lados contrários, estamos sim a sofrer na pele a mesma injustiça”. Ou seja, o jovem mandatário do pai não hesitou mesmo em “esfaquear pelas costas” os seus associados, o que revela bem o caráter e os métodos desta gente: tal pai tal, tal filho – como sói dizer-se.

Percebe-se – também não é difícil – que Américo Nascimento e a sua fação no partido não gostam do JSN. Pela parte que nos toca, não gostamos nem deixamos de gostar do próprio e/ou dos seus camaradas. O que queremos (e sabemos) fazer chama-se jornalismo que historicamente foi sempre – não o 4º poder, como alguns gostam de referir – contrapoder. É essa, aliás, a função da imprensa livre em todo o mundo, mesmo quando sujeita às mais tenebrosas ditaduras ou à sanha de “coronéis” de novela.

Em menos de dois meses de existência o JSN publicou já mais de quinze notícias sobre a Ribeira Brava, a maior parte delas sobre iniciativas da Câmara Municipal da Ribeira Brava e, só no espaço dos últimos quatro dias, editou três notícias sobre as festividades do Dia do Município. JSN, como já se referiu, publicou uma Grande Entrevista com Américo Nascimento, e por várias vezes solicitamos, através da assessora de imprensa da Câmara Municipal, esclarecimentos da autarquia, o que esbarrou nos últimos tempos com um muro de silêncio. Ademais, tentamos o contacto telefónico com o próprio presidente, que apenas nos atendeu uma vez para agendamento da referida entrevista.

É bom de ver que o JSN tem procurado sempre fazer o “trabalho de casa” e pautar a sua atuação pelos princípios da ética. Não nos tolhe a consciência e, muito menos, nos afligem os ardis, as insinuações, as tentativas de condicionar a nossa liberdade e, muito menos ainda, a ameaça de vassouradas. Todas as investidas são para nós ataques de fisga, demonstrando estarmos no caminho certo e fiéis aos sagrados princípios do dever de informar e do direito dos leitores à informação.

António Alte Pinho | Editor | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.">Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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