EDITORIAL: 2014, o ano de todas as interrogações

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As recentes promessas feitas pelo Governo estarão também sob observação no ano que agora se inicia. Mais e melhores transportes marítimos e aéreos não podem ficar no role da mera conjetura pontual dos discursos, adiando-se ainda mais a resolução do maior problema da ilha: o isolamento a que tem estado votada


Nesta época é comum a imprensa passar em revista o ano que finda. Um exercício algo dispensável mas que entrou nos hábitos da comunicação social, por razões que se desconhecem. É sabido também que poucos têm paciência para reler o que já haviam lido durante o ano, tornando praticamente inútil a revisitação do passado.

Mais importante seria que se refletisse, tomando como referência o ano velho, sobre o que do novo ano poderão esperar os leitores, mas não caindo naturalmente em exercícios de adivinhação. É importante ler e interpretar os “sinais” e perceber o que o futuro nos poderá trazer neste ano que dentro de algumas horas se anunciará com os estridentes ruídos de todos os anos, de todas as épocas e de todos os continentes.

Poder local sob observação pública

Em São Nicolau, espera-se que o Ministério Público seja célere em desvendar o escândalo do desfalque na Câmara Municipal da Ribeira Brava para que, de facto, a opinião pública possa perceber, com rigor, o que se passou e punidos os responsáveis materiais, políticos e morais deste assalto aos dinheiros públicos. A culpa não pode morrer solteira, a Justiça não se pode agachar aos poderosos interesses instituídos, nem ficar-se pelos “culpados convenientes”.

Ainda na ilha, mas no Tarrafal, o interesse público exige que a Câmara Municipal apure o mais rapidamente possível o esquema de reserva de terrenos instituído pelo Gabinete Técnico – à margem da Lei e com intenção clara de favorecer “amigos” -, bem assim as suas omissões na fiscalização das obras de edificação do prédio derrocado em setembro último e, eventualmente, outras irregularidades, expondo os autores factuais, morais e políticos de factos que estão para além da mera incompetência, já de si razão suficiente para alarme.

Promessas do Governo têm de ser cumpridas

As recentes promessas feitas pelo Governo, protagonizadas por Sara Lopes e José Maria Neves, estarão também sob observação no ano que agora se inicia. Mais e melhores transportes marítimos e aéreos não podem ficar no role da mera conjetura pontual dos discursos, adiando-se ainda mais a resolução do maior problema da ilha: o isolamento a que tem estado votada, particularmente na última década, e que tem atrasado o seu desenvolvimento.

Em nenhum momento a resolução deste problema central pode ser adiado com o argumento que se vem aplicando a outros casos e que apontam resolução até 2030. As promessas feitas quanto a São Nicolau aplicam-se a este mandato e têm de ser implementadas até 2016, sob pena de os políticos e, neste caso – o que seria mais grave -, a ministra das Infraestruturas e o Primeiro-Ministro ficarem completamente desacreditados.

A necessidade de renovação política

Ao nível das lideranças partidárias, 2014 vai ser a primeira grande prova de fogo. No MpD, Ulisses Correia e Silva vai ter de convencer o eleitorado que é a melhor alternativa para a governação, embora a sua manutenção como edil da capital lhe coloque algumas limitações ao exercício pleno da liderança, uma situação que os ventoinhas terão de resolver a breve trecho. De qualquer modo, o principal partido da oposição é aquele que está numa posição mais confortável. Isto é, se em 2015, altura da próxima convenção nacional, os militantes considerassem não estar Ulisses à altura, ainda iriam a tempo de promover a mudança de líder e bater-se em condições de igualdade com o principal adversário político, o PAICV.

No partido tambarina a situação apresenta-se mais complexa. Desde logo, porque os putativos candidatos, já anunciados, têm estado no centro da vida política da última década, o que revela que o PAICV não teve a capacidade de se renovar nos últimos anos, persistindo nas mesmas receitas e com o essencial dos candidatos a registarem um historial de “casos mal resolvidos”.

Felisberto Vieira tem pairando sobre si o trajeto pouco claro à frente da autarquia da capital e evidencia sinais exteriores de riqueza incompatíveis com as funções que tem exercido. Cristina Fontes Lima tem sobre si a suspeita – nunca esclarecida – de ter estado envolvida num incidente pouco abonatório para um membro do Governo, em Santaninha (com bofetadas à mistura), a poucas horas da abertura das urnas da primeira volta das eleições presidenciais de 2011. Janira Hopffer Almada tem sobre si o estigma do nepotismo, quando nomeou o então noivo (e atual marido) para a administração do INPS, passando ao país a ideia de que os assuntos de Estado se podem entrecruzar com interesses pessoais. Júlio Correia, apesar de não chamuscado por nenhum escândalo tem sobre a sua cabeça a suspeita de não ser leal aos amigos, de abandonar companheiros de combate (vide a sua “traição” a Filú). Ademais não se lhe conhece qualquer rasgo político, nem parece suscitar o entusiasmo das multidões – características essenciais do ADN de qualquer líder.

2014 apresenta-se, assim, como um ano difícil para o PAICV, o que poderá levar - no limite, e esgotados todos os cartuchos - a uma nova recandidatura de José Maria Neves para salvar o partido do “desastre”.

Sinais de “reprise” são mais que muitos

A campanha eleitoral de 2016 já começou e o Primeiro-Ministro desdobra-se em aparições públicas, inaugurações, declarações de intenções, promessas e mais promessas, e a TCV vai dando uma ajuda. Será normal que numa democracia o chefe de um Governo – ainda para mais de saída - apareça quatro e cinco vezes no mesmo noticiário?

A ideia é fazer passar a mensagem que José Maria Neves trabalha “de sol a sol”, como o próprio por várias vezes disse fazer e que sem o PAICV no Governo seria o “caos” no país. Se o Governo trabalha tanto e tão bem para quê mudar o partido da governação? Mais ainda, se o Primeiro-Ministro é assim tão bom, para quê mudar de chefe de Governo? Não seria melhor criar uma “vaga de fundo” e pedir a José Maria Neves que fizesse mais um “sacrifício pelo país” e avançasse de novo em 2016?

A ideia com que se fica é que o líder do PAICV, ao contrário do que tem afirmado repetidamente, prepara uma quarta candidatura em 2016 seguindo uma estratégia previamente delineada.

Primeiro, alega indisponibilidade para acalmar os opositores dentro do partido, estimulando mesmo o surgimento de pré-candidaturas e instalando condições para guerras internas entre possíveis candidatos a líder, como aliás aconteceu recentemente entre Júlio Correia e Felisberto Vieira, e assim desvia a atenção da sua pessoa e prepara condições para ressurgir como o “grande salvador”, o homem que mais uma vez decide assumir o “sacrifício” de se recandidatar para evitar o “caos” que seria o PAICV fora da governação.

Segundo, com a repetida declaração da sua indisponibilidade, José Maria Neves alivia as críticas da oposição à sua pessoa, transferindo-as para o Governo, fazendo passar mais ou menos intacta a sua imagem e ressurgir como o “salvador da pátria” em 2016: o homem que “por amor a Cabo Verde” mais uma vez se sacrifica para servir o País.

Mas o truque do líder do PAICV – a existir, porque trata-se apenas de uma “especulação” - pode enganar muita gente, mas não engana toda a gente e acima de tudo tem uma grande fragilidade: as crescentes aparições públicas não se traduzem em obras de facto, antes em declarações de intenções e promessas para o futuro – lá para 2030 -, um futuro tão remoto quanto impalpável. E de promessas estão os cabo-verdianos cheios e recheada a vida política de José Maria Neves. De qualquer modo, há poucos políticos com a sua capacidade de resistência e de convencer o eleitorado. Neves será sempre o último recurso para salvar o PAICV do “naufrágio”.

Instabilidade social já se anuncia

Com a Lei das Micro e Pequenas Empresas, com a revisão do Código Laboral e com várias promessas não cumpridas, o Governo tem arranjado lenha para se queimar. A 20 de janeiro as duas centrais sindicais vão estar juntas num protesto de rua, para abril projeta-se uma greve geral e, pela primeira vez, o 1.º de Maio vai assistir a uma manifestação.

É claro que o Governo perdeu a sua base social de apoio, e até mesmo a UNTC-CS, afeta ao PAICV - e que tem um deputado líder sindical - não se inibe de contestar as políticas, promessas e omissões do Primeiro-Ministro. O partido tambarina tem votado só no parlamento: aprovou o Orçamento Geral do Estado para 2014 contando com a oposição do MpD, da UCID, das centrais sindicais e dos patrões, e o mesmo já havia acontecido com o OGE deste ano. A maioria política de 2011 parece ter-se diluído num atoleiro de contradições. 2014 vai ser irremediavelmente marcado pela agitação e contestação social. A dúvida está em saber como José Maria Neves vai gerir o problema, se ainda é portador da maestria que lhe permitiu ultrapassar contratempos no passado.

Projeções à parte, desejamos, entretanto, que o Ano Novo prestes a iniciar seja de boas novas, de muita prosperidade para todos e cada um em particular. Que haja trabalho, emprego, dinamização da economia, que haja produção de riqueza, e que acima de tudo o País e cada uma das ilhas cresçam e se desenvolvam para o bem de todos.

António Alte Pinho | Editor | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.">Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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