Quando o ridículo sobe ao palco

. Publicado em Editorial

Quem assistiu ontem à inauguração oficial do terminal de passageiros do Aeródromo da Preguiça ficou com uma triste imagem da política e dos políticos e deparou-se com um espetáculo ridículo que, ao contrário de enobrecer o surgimento de uma importante infraestrutura para São Nicolau, menorizou o ato público e, desde logo, o PCA da ASA, o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Brava e, pior ainda, o Primeiro-ministro (que, por uma questão de dignidade do cargo, deveria abster-se a ser ator de cenas ridículas).

Desde cedo se percebeu, logo no decurso da intervenção de Mário Paixão, que o ato público para além da intenção manifestada formalmente tinha, sorrateiramente, um outro objeto: o retoque da imagem pública de Américo Nascimento, muito fustigada recentemente pelo caso do desvio de milhares de contos dos cofres da autarquia da Ribeira Brava, supostamente da lavra única de uma ex-funcionária do município.

Mário Paixão, perdendo a compostura que deve ter o presidente do Conselho de Administração de uma empresa – a ASA -, esticou-se em elogios públicos ao autarca, fazendo sobressair o seu empenhamento e solicitude na implementação da infraestrutura inaugurada, ignorando grosseira e levianamente o presidente da Câmara Municipal do Tarrafal e apresentando “Meca” como o grande defensor dos interesses saniculaenses. Por tão excessivos, os elogios que poderiam passar naturalmente sem que algum mal viesse ao mundo, caíram mal junto da assistência que não tinha ido ali para um desagravo a Américo Nascimento.

O segundo ato do ridículo levado ao palco da Preguiça foi protagonizado pelo próprio edil da Ribeira Brava que, falando sempre na primeira pessoa (num eu, eu, eu, exaustivo e enfadonho) teceu sobre si próprio os maiores encómios, não tendo o mínimo pudor em se apresentar como o grande combatente pelos interesses da ilha (que não só do seu município) e aludindo a um suposto trabalho subterrâneo que andaria a fazer desde há cinco anos, não se notando muito, mas traduzindo-se nas grandes obras de que o terminal de passageiros é exemplo maior. “Meca”, talvez mal aconselhado e/ou por imodéstia, apresentou o novo complexo como uma vitória sua (pessoal), resultante de um trabalho de formiguinha, deduzindo-se que por via das tais diligências que se não veem e são feitas no momento certo e no local próprio…

Ficou-lhe mal a leva egocêntrica e, ademais injusta, virou-se contra ele próprio, desconsiderando outros nomes e outras figuras da política local, inclusive o empenhado e sério deputado nacional da situação Carlos Ramos, para já não falar dos seus antecessores na autarquia, do seu homólogo do Tarrafal ou do deputado da oposição Nelson Brito, figuras que se têm batido e na razão das suas possibilidades pelos interesses de São Nicolau.

Mas o pior momento da tarde, infelizmente (porque, como já referimos, o Primeiro-ministro de Cabo Verde não se pode prestar a estas coisas), foi protagonizado pelo próprio José Maria Neves que, como os seus antecessores, voltou a desconsiderar o edil do Tarrafal, alongando-se em loas às virtudes e excelsas qualidades do seu camarada de partido da Ribeira Brava. 

A inauguração oficial do terminal de passageiros do aeródromo da ilha foi apoucada por lógicas tacticistas que transformaram o ato numa espécie de comício partidário, aliás mal orquestrado, tal a forma nua e crua com que se expôs à compreensão imediata de grande parte da assistência e gerando um fenómeno contrário àquele a que se propunha, pois ficou a ideia de que o edil da Ribeira Brava é pouco modesto, egocêntrico e um líder fraco que precisa das palmadinhas nas costas de um gestor público e do próprio Primeiro-ministro.

Américo Nascimento bem se poderia ter poupado ao ridículo e ter saído ontem com a sua imagem pública reforçada ao associar-se a um evento de grande importância para o seu município e para toda a ilha.

António Alte Pinho

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Edição em papel

Brevemente disponível
para download em PDF
(Gratuito)