EDITORIAL: E da noite se fez dia

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Passam hoje 23 anos sobre as primeiras eleições livres. A marcha infindável de um povo é feita por etapas. Sem luta contra a ocupação estrangeira e a ditadura fascista portuguesa, não seria possível a independência da Pátria; e sem esta seria impossível o Estado de Direito democrático cujos pilares se erguem dia-a-dia


Passa hoje o 23º Aniversário da data em que os cabo-verdianos, pela primeira vez na sua marcha colectiva – quer antes quer após a independência da Pátria – votaram livremente, escolhendo sem constrangimentos os legítimos representantes da sua vontade soberana.

Foi a 13 de Janeiro de 1991 que os cabo-verdianos derrotaram o projeto autoritário de um partido – o PAIGC/CV – e infligiram uma derrota pesada à teimosia daqueles que recusavam entender os novos ventos da História.

E foi, naturalmente, o dia em que o povo deu maioria expressiva e qualificada ao, então emergente, Movimento para a Democracia (MpD). Foi, também, o fim de um regime, de uma visão do mundo e de um projeto de sociedade que não se identificava com o pulsar coletivo de um povo, que tinha perseguido muitos dos seus filhos, atirando-os para a indignidade do campo de concentração do Tarrafal – outrora calvário de muitos antifascistas portugueses e nacionalistas africanos –, da sujeição à ação de esbirros, de bufos, senão mesmo à morte submersa no sangue de vítima inocente em Santo Antão, ou obrigando ao exílio forçado, à diáspora não querida mas inevitável.

De 1975 a 1990, o PAIGC/CV impôs um regime ditatorial ao povo de Cabo Verde, traduzido na inexistência de liberdades individuais e na inobservância de um dos mais elementares princípios da dignidade humana: o direito de cada homem e mulher decidir livremente o seu destino, sem necessidade de partidos-guias, de grandes líderes incontestados ou de figuras providenciais. E esta é uma insofismável verdade histórica.

Vencedores e vencidos

O 13 de Janeiro – e é bom que se relembre – tem vencedores e tem vencidos. Venceram aqueles que, mesmo vindos do interior da ditadura do partido único, perceberam qual o momento de serem cidadãos do seu tempo e entregarem-se à mudança coletiva. Perderam os que não perceberam que dentro da cabeça dos cidadãos comuns já não cabia a visão esquemática do planeamento feito por iluminados, da organização social gizada por diretório, nem havia já nesse mundo em cacos espaço para um regime contra a corrente de liberdade e democracia que varria as nações. É bom que se diga, para que não se esqueça!

Mas o 13 de Janeiro – como, aliás, o 5 de Julho -, contextualizada a sua história, não é património de um partido ou de uma ideologia. Pelo contrário, numa sociedade que se quer cada vez mais precursora de segurança com liberdade e de uma democracia sem exclusões, deve ser data referencial de todos os partidos cabo-verdianos e mola impulsionadora de um Estado de Direito onde o desenvolvimento e o progresso social determinem a dinâmica da Nação e onde os homens e mulheres cabo-verdianos possam fruir de uma vida digna.

Reforçar a qualidade da democracia

As bolsas de miséria e de exclusão crescentes são a pedra de toque que permite aferir - independentemente das graduações internacionais - da qualidade da nossa democracia. E, nesse domínio, a gritante indignidade a que estão sujeitos milhares de cabo-verdianos, varados pelo desemprego, a precariedade habitacional, senão mesmo a fome – fenómenos geradores de instabilidade social, delinquência e insegurança -, são um sinal de alerta para que a nossa consciência coletiva possa encontrar, de novo, a mola impulsionadora que conduziu este povo na luta contra a ocupação estrangeira e o fascismo, pela independência da Pátria e pelos novos desígnios da liberdade e da democracia – as grandes causas da marcha mais recente de Cabo Verde.

Uma sociedade não pode ser dividida em anjos e demónios. Às perversidades do regime ditatorial de partido único, juntam-se algumas incongruências do regime democrático, disfunções e distorções que pontualmente têm manchado o processo político e que, inevitavelmente, encontram responsáveis em todos os quadrantes. Mas o fascínio da liberdade e da democracia é precisamente esse: a capacidade autónoma de cairmos e de nos levantarmos logo de seguida, dando passos para superar as nossas insuficiências e debilidades, erguendo-nos na incessante procura individual e colectiva de um futuro melhor, desde logo para nós e para os vindouros. Mas não perdendo a exigência cívica e cidadã de que a felicidade pode ser agora.

António Alte Pinho | Editor | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.">Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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