FREI ANTÓNIO FIDALGO: os nossos confrades levam sonhos para São Tomé e Príncipe

Escrito por Editor JSN . Publicado em Grande Entrevista

O superior dos capuchinhos de Cabo Verde fala ao nosso Jornal da nova missão que a sua fraternidade vai ter em São Tomé, numa resposta ao bispo daquela igreja particular

 



Frei António Fidalgo garante que a decisão de seguir para missão em São Tomé e Príncipe está tomada desde o ano passado, num processo iniciado no capítulo de 2012 mas agora estão reunidas as condições para responder positivamente ao pedido do bispo de São Tomé.



Os três confrades seus que seguem no mês de setembro vão assumir a paróquia de Santa Cruz mas o trabalho não será apenas com os cabo-verdianos, incluindo também as muitas etnias locais.



O frei Samuel já confirmou a sua ida para esta nova missão mas os outros dois missionários (um outro sacerdote e um irmão) ainda não foram revelados.



Sonhos há entre os missionários que seguem para esta nova terra mas o custódio dos capuchinhos adverte para a necessidade de saber “escutar e aprender” com a nova realidade.




JSN - Em que pé está o processo de abertura da fraternidade em São Tomé e Príncipe?
Frei António Fidalgo - Neste momento o que falta mesmo é ir para São Tomé. Mas isso só vai acontecer a partir dos meados de setembro próximo, altura da abertura do novo ano pastoral. Entretanto, a Custódia dos capuchinhos de Cabo Verde deve preparar um texto de acordo que será assinado por nós e pelo bispo de São Tomé e Príncipe, dom Manuel António Mendes dos Santos. O bispo já pôs à nossa disposição, em São João dos Angolares, uma casa modesta, mas decente, onde os nossos missionários vão residir.



Quem será a primeira equipa nesta nova missão (nota-se que o questionário foi enviado na semana anterior à festa de Nossa Senhora do Monte Cintinha em que se ficou a saber da ida do frei Samuel)?  
Faço questão de explicar que o processo foi o seguinte: primeiro houve a votação da ida ou não para São Tomé. Isso aconteceu no mês de julho do ano transato, no decorrer do XII capítulo da província, presidido pelo provincial de Turim. A grande maioria votou sim. Num segundo momento, já depois do capítulo, os candidatos para São Tomé foram-se manifestando. Foram sei os que se disponibilizaram. De entre esses, o conselho selecionou três. O nome dum deles já circulou nas redes sociais (frei Samuel conforme o próprio confirmou na missa de Monte Cintinha em Cachaço). Prefiro não falar dos outros dois, sobretudo dum deles, porque há processos que têm de ser seguidos, mas de entre os três, um é irmão capuchinho, não é sacerdote.



Foi fácil chegar ao entendimento/decisão de abrir uma nova fraternidade em São Tomé?
A votação foi precedida dum longo debate, mas tudo decorreu num clima de serenidade.




O processo iniciou há muito tempo ou já no seu “consulado” como superior dos capuchinhos?

O processo já vinha do capítulo de 2012, ainda no tempo do frei Bernardino. Mas a decisão só foi tomada, como já disse, no capítulo do ano passado, esse que me elegeu para Custódio.


Vão assumir uma paróquia em São Tomé junto de uma comunidade cabo-verdiana. Pode nos falar dessa região, especificidades da zona, dificuldades, anseios da população?
Trata-se dum território bastante extenso, situado no sul da ilha de São Tomé, que tem a sua sede em São João dos Angolares e está enquadrado no distrito de Caué, um dos mais importantes de São Tomé e Príncipe.  
A paróquia é dedicada a Santa Cruz. Tem perto de nove mil habitantes, espalhados pelas seguintes comunidades: Ilhéu das Rolas, Porto Alegre, Malanza, Ponta Baleia, Monte Mário, Agripalma, Ribeira Peixe, Praia Pesqueira, Dona Augusta, Yô Grande, Angolares, Angratoldo Praia e  Angratoldo Cacalete. Faço notar que os capuchinhos não estarão apenas ao serviço dos habitantes de origem cabo-verdiana. O bispo de São Tomé nos chama para trabalhar com todas as etnias, com o povo de São Tomé no seu todo. Os nossos três confrades levam sonhos mas sabem que não podem levar a pretensão de serem salvadores. Sabem que primeiro devem escutar e aprender. Aprender com o povo e procurar perceber os anseios da Igreja local e do povo em geral.




Qual foi a reação do bispo de São Tomé perante a vossa decisão?
Pelo que já disse antes, percebe-se que nós nos limitámos a responder a um pedido do Bispo de São Tomé. O missionário vai para onde é chamado. Em 1947 os missionários capuchinhos que vieram da Itália para a nossa terra, responderam um SOS do então bispo de Cabo Verde, dom Faustino Moreira dos Santos e vieram trabalhar nas nossas ilhas. Respondendo, então à sua pergunta, digo-lhe que, como era de esperar, o bispo de São Tomé ficou muito satisfeito com a nossa resposta positiva. E gostou muito que vá para São Tomé um irmão não sacerdote, porque isso fará conhecer um modo de ser consagrada que as comunidades de lá não conhecem.



Antes de concluir que mais gostaria de partilhar connosco e com os nossos leitores?
O que posso ainda dizer é que os cristãos de São Tomé e o povo em geral dessas duas ilhas não conhecem o carisma franciscano. Fala-se da presença de capuchinhos em São Tomé já no século XVII, mas terá durado muito pouco. Eles foram capturados por piratas holandeses e levados para o Brasil. É assim a vida do missionário. O sucesso não está garantido à partida. Por outro lado, o Brasil ganhou pois os capuchinhos levados para ali contra a sua vontade, acabaram por dar início a uma nova missão. Mas, brincando, digo que espero que não apareçam mais piratas holandeses agora que, de novo, os capuchinhos vão para São Tomé.



Há quem diga que os nossos três confrades estão ansiosos por poderem iniciar essa presença em São Tomé, um arquipélago cheio de contrastes, sobretudo quando se contempla a natureza exuberante e aparentemente rica, e a população que enfrenta várias carências. É natural que não façam planos por ora. Mas é natural que sonhem ter, se houver condições, gostariam uma ação no seio das famílias, do mundo infanto-juvenil, e contam, como franciscanos que são trabalhar na preservação dessa espécie de paraíso terrestre que é São Tomé. Contam igualmente trabalhar não somente para o incremento do clero local como também na difusão do carisma franciscano-capuchinho, sobretudo no seio da juventude.



Entrevistado por Anísia Campinha

 

 

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar

Edição em papel

Brevemente disponível
para download em PDF
(Gratuito)