IGREJA MATRIZ: Cidadãos querem resgatar estatuto de Sé Catedral

. Publicado em São Nicolau

Cidadãos de todo o arquipélago pretende restituir o anterior estatuto à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, na Ribeira Brava, e disso deram ontem conta ao Bispo do Mindelo. A última decisão será sempre da Santa Sé, mas os promotores da iniciativa estão muito esperançados. Para além do lado religioso, o resgate do velho estatuto poderá dar um grande impulso ao desenvolvimento de São Nicolau


 

Representantes de um movimento de cidadãos (na foto) entregaram esta quinta-feira ao Bispo do Mindelo uma petição, subscrita por mais de 300 pessoas de várias ilhas do arquipélago, onde defendem que a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em São Nicolau, readquira o Estatuto de Sé Catedral que ostentava no século XVIII. O encontro aconteceu no Seminário e nele participaram também os presidentes das câmaras da Ribeira Brava e Tarrafal, respetivamente, Américo Nascimento e José Freitas de Brito.

A campanha pelo resgate do estatuto de Sé Catedral começou a ser conhecida em janeiro deste ano e tem como protagonistas o médico, investigador e ativista cultural João Soares, que reside em Dakar (Senegal), e o investigador, ativista cultural e colaborador da autarquia do Tarrafal José Cabral.

Os subscritores da petição dão como exemplo casos similares na Europa, onde vários templos católicos, apesar de terem perdido o bispado - como é o caso da Igreja Matriz de São Nicolau -, mantêm o estatuto de Sé Catedral. Ou seja, Catedral uma vez, Catedral para sempre.

Um passo gigantesco

Comentando o encontro com D. Ildo Fortes, o médico João Soares considerou ter-se tratado de “um passo gigantesco, para a nossa espiritualidade cabo-verdiana”, mas fez questão de acentuar não haver “nenhuma garantia assumida, porque é um trabalho que ainda vai ser apreciado pela Diocese e a nível papal”, considerando, no entanto, estar “muito esperançoso” que a iniciativa irá dar “frutos positivos”. “Correu tudo muito bem, sentimo-nos em casa”, disse ainda o médico, mas como é evidente uma decisão final terá de ser adotada pela Santa Sé, embora a opinião das dioceses do Mindelo e de Santiago sejam determinantes para um processo como este.

Santa Sé tem última palavra

“É uma combinação a nível das várias dioceses e da Santa Sé, que esperamos vir a acontecer e terá repercussões a nível internacional”, sublinha Soares, adiantando pensar que “poderá ter grande influência no desenvolvimento de São Nicolau nos próximos anos”, mas também “parcerias com outras catedrais do mundo, com a UNESCO, podendo-se equacionar muito coisa em termos de património”. João Soares prevê, ainda, caso o estatuto de Sé Catedral seja resgatado, a “vinda de peregrinos de todo o mundo, beneficiando Cabo Verde inteiro”, nomeadamente o “setor privado e impulsionando os transportes aéreos e marítimos, a restauração e a hotelaria”, vantagens que, como se percebe, estão para além do próprio domínio religioso.

Rejeitando qualquer protagonismo pessoal, João Doares diz que “este projeto não tem nome, surgiu de um grupo de anónimos” e de muitas conversas entre várias pessoas, “falando aqui e acolá” para ganhar corrente à ideia de conferir à Igreja Matriz o estatuto que teve durante dois séculos. Um templo que se ergueu à custa de muito esforço e trabalho dos saniculaenses, particularmente das mulheres da ilha. A produção de azeite de purgueira, vendido a Portugal para iluminar as ruas de Lisboa, constituiu o capital necessário à edificação da então Sé Catedral. As mulheres transportavam ainda areia e água à cabeça e os homens deram a mão como pedreiros e carpinteiros.

Construída em finais do século XVII, tendo entretanto beneficiado de uma reconstrução, o templo tornou-se Sé Catedral quando o Bispo se mudou de Santiago para São Nicolau, decorrente do declínio da Cidade Velha, o primeiro berço do bispado em Cabo Verde.

A intenção dos subscritores da petição não é reivindicar um bispo para São Nicolau, apenas resgatar à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário o estatuto que ostentou no passado e conferir-lhe uma dignidade que, inclusive, pode vir a estimular o turismo histórico-religioso na ilha, uma mais-valia para o desenvolvimento da economia e do progresso social.

 

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