AMÉRICA LATINA E CARIBE: Assinala-se hoje o Dia da Mulher Negra

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Após séculos de exploração, ainda há de forma intensa a erotização e apropriação do corpo da mulher negra, onde na divisão entre santas e profanas, acabam por ocupar o espaço de diversão casual. Nada diferente do passado por mulheres negras na diáspora como um todo e principalmente na América Latina


 

Porque reverenciamos o 25 de Julho, Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Caribenha?

As mulheres negras nunca reconheceram o mito da fragilidade que sempre justificou os espaços subalternos que lhes foram dados. Aprenderam muito cedo o quanto duro é o trabalho nos espaços disponibilizados e acima de tudo que suas vidas valiam o que lutassem para ter. O processo que desumaniza a população negra, fez com que o machismo sobre essas mulheres, tivesse um impacto maior do que nas demais, principalmente na mercantilização de suas vidas e corpos, além de sua afetividade.

Sabemos quais são as consequências da negação do papel da mulher negra na formação da cultura dos povos, especialmente na política partidária e na área social. Mesmo entre os movimentos feministas mais avançados e plurais, há ainda hoje uma dificuldade em reconhecer as mulheres negras que estiveram presentes nas lutas e movimentos sociais e principalmente na capacidade destas de ocupação de espaços “privilegiados”. As heroínas e intelectuais negras são totalmente invisibilizadas nos processos históricos.

Após séculos de exploração, ainda há de forma intensa a erotização e apropriação do corpo da mulher negra, onde na divisão entre santas e profanas, acabam por ocupar o espaço de diversão casual. Nada diferente do passado por mulheres negras na diáspora como um todo e principalmente na América Latina, onde essa identidade é legitimada a partir de raízes euro-ocidentais, raízes que rejeitam a presença negra na história e vida cotidiana, que exclui e discrimina estas. Por conta do entendimento desta realidade comum na diáspora negra, um grupo de mulheres negras viu a necessidade de iniciar um debate em nível internacional sobre a situação da população afro descendente, o racismo, discriminação e principalmente questionar a identidade europeia imposta a esse povo.

Diante da constatação de que é difícil ser negra latinoamericana numa sociedade construída a partir do racismo e do patriarcado, essas delinearam os países latinoamericanos via exclusão territorial, social, económica e política. Esses dados confirmaram a realidade da diáspora negra na perspetiva racial e principalmente das mulheres negras, onde essa identidade implica em sofrer uma dupla opressão historicamente construída e a hegemonia de um género sobre o outro. Ao compreender esses factos, surge a necessidade de construir uma identidade global com uma articulação que pudesse permitir ter uma maior visibilidade desta situação em toda região.

Essas mulheres internacionalizaram o debate que faz surgir o movimento das mulheres afrolatinas e caribenhas, contribuindo desta maneira para a criação da maior antena preta feminista. Essa união permitiu a aproximação de profissionais de comunicação, da cultura, académicos e áreas afins que hegemonizaram a luta negra na diáspora de forma continental. A partir desta articulação, em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, realizou-se o 1º Encontro de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas, do qual decorreram duas decisões: a criação da Rede de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas e a definição do  25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha.  Data que, nos dias de hoje, temos orgulho em comemorar.

O 25 de Julho internacionaliza o feminismo negro via aglutinação da resistência das mulheres negras à cidadania nas regiões em que vivem, principalmente as opressões de género e étnicoraciais. Desta forma, essa data amplia e fortalece as organizações e identidade das mulheres negras, que vêm construindo estratégias para o enfrentamento do racismo e do sexismo. Essa não é uma data qualquer para nós mulheres negras, ela significa o rompimento com um feminismo que nunca nos contemplou. Resgata a luta das mulheres negras da diáspora, iniciada ainda na década 70, através das feministas negras em pontos diferentes da diáspora.

Comemorar o 25 de julho é celebrar e reverenciar a elaboração de novas perspetivas feministas, em especial da introdução da diferença na teoria feminista tradicional. Afinal não podemos esquecer que o feminismo que ressurgiu na década de 1970, afirmava uma identidade feminina homogénea, logo não se conseguia identificar e visibilizar demandas específicas de mulheres que sofriam com a interseção de diversas condições como, género, raça, classe, etnia, orientação sexual e religiosidade.

Fortalecer o 25 de julho é dar visibilidade e energia à emancipação das mulheres negras de um feminismo que colocava a opressão de género como fator opressor prioritário para as mulheres, sem levar em conta as demandas das mulheres negras. É fortalecer a emancipação de um feminismo que não conseguia abarcar as diferenças entre estas, ou seja, o olhar para as múltiplas experiências e identidades femininas.

Empoderar essa data é contribuir na luta histórica de mulheres que foram e são protagonistas no pautar e exigir de seus países o atendimento de demandas que nos dias de hoje melhoram a qualidade de vida da população negra, é lutar pela garantia e ampliação do acesso a direitos já conquistados, principalmente na construção enquanto continente de afros descendentes como uma  nação transnacional. É nessa construção coletiva que precisamos acreditar quando reverenciamos o 25 de julho, dia da Mulher Afrolatinoamericana e Caribenha.

Luciane Reis | historiadora e colunista | Blogueiras Negras

 

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