ONDINA FERREIRA: Como podem ser diferentes as perspectivas históricas...

. Publicado em Opinião

Durante a visita, a atenção da minha primogénita ateve-se no túmulo do nosso muito conhecido e tristemente célebre, Francis Drake. Faz um alto para os filhos e explicou-lhes sucinta e assertivamente: “Este aqui, pode ser herói para os ingleses, mas para nós é um bandido”


 

Serve o texto que se segue para demonstrar de como se percepcionam, dependendo da cultura e da história, heróis versus bandidos e/ou piratas malfeitores.

No último verão, a minha filha mais a família, marido e filhos visitaram Londres. Eis que de entre visitas interessantes feitas a monumentos magníficos daquela grande cidade europeia, entraram na Abadia de Westminster, onde se encontram sarcófagos de grandes heróis ingleses.

Durante a visita, a atenção da minha primogénita ateve-se no túmulo do nosso muito conhecido e tristemente célebre, Francis Drake. Faz um alto para os filhos e explicou-lhes sucinta e assertivamente: “Este aqui, pode ser herói para os ingleses, mas para nós é um bandido, pirata, que saqueou e destruiu no século XVII a Cidade da Ribeira Grande, hoje conhecida por Cidade Velha na ilha de Santiago, por sinal considerada a primeira cidade construída pelos portugueses, o mesmo que dizer, europeus, e, obviamente, pelos africanos em terras tropicais. Mas mais, continuou a explicar a minha filha: nas ilhas, por onde ele passava, Francis Drake e os seus homens pilhavam, matavam, saqueavam e violavam mulheres. Era assim o “modus operandi” deste inglês, glorificado na terra dele e elevado à categoria honorífica de “Sir” porque grande parte do seu saque era entregue à coroa britânica que desta forma o incitava a continuar os seus actos de barbárie e de banditismo …”

Em traços gerais e historicamente, assim esclareceu a mãe aos filhos, o porquê que, para ela, o sepultado na Abadia de Westminster e na óptica dela, nunca poderia ser classificado de herói!

Interessante é que dias depois, estando eu a ler uma revista que trazia uma longa separata sobre a história das guerras entre espanhóis e portugueses para a restauração da independência portuguesa (1640), compreendi que a expressão popular “amigos de Peniche,” sinónimo de falsos amigos, tinha por detrás a “assinatura” de Francis Drake. Supostamente, o papel dos aliados ingleses – numa guerra que se estendeu até 1668 – era ajudar os portugueses a saírem da ocupação espanhola. Mas tanto destruíram e saquearam, sob comando do terrível Drake, que merecidamente levaram o epíteto de “amigos de Peniche”, nome da localidade onde se situa o porto de onde desembarcara F. Drake. Li ainda nesse mesmo documento, que a cidade de Faro no Algarve, por exemplo, foi completamente pilhada e destruída por Francis Drake e os seus homens, sempre abençoados pela Rainha inglesa…

Enfim, tudo isto para dizer que podem ser muito relativos, diferentes e até opostos a percepção e o entendimento de herói e de bandido. Infelizmente, os interesses falam mais alto do que valores…

Francis Drake é nisso um caso paradigmático.

Ondina Ferreira | Coral Vermelho

[JSN agradece à Dr.ª Ondina Ferreira a autorização para publicação dos seus textos]

 

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