ALBERTO NUNES: Ilha do Fogo e Santa Catarina – as táticas dos alimentadores de um sistema

. Publicado em Opinião

Este tipo de mentalidade secundariza ou melhor terciariza a ilha apesar das potencialidades existentes (turismo, agricultura, emigrantes, etc.) em benefício do partido e seus clientes, como também tem jogado a ilha no sexto lugar em termos de desenvolvimento, e alimenta ainda dois dos três concelhos mais pobres do país


 

“Honestidade é um presente muito caro. Não espere isso de pessoas baratas.” - Warren Buffet

A ilha do Fogo e Santa Catarina vêm assistindo, nos últimos anos, à existência de um grupo de indivíduos bem identificados - com uma mentalidade rígida, fechada, mal instruída (parafraseando o Dr. Casimiro de Pina) e sobretudo perigosa a querer a todo custo e em vão descredibilizar alguns cidadãos da ilha e do concelho que vêm batalhando incansavelmente, pondo em causa a sua paz social, para denunciar algumas práticas lesivas - levadas a cabo pela situação (local e nacional) que põem em causa a democracia e as coisas públicas. Quando, ao menos, se esperava um comportamento diferente e sobretudo responsável da parte de alguns homens desta ilha e deste concelho - eis que aparecem esses indivíduos desarticulados da realidade e da verdade e sem dados – entolhados - num fanatismo e cegueira sem paralelo - a deixar transparecer resquícios de analfabetismo funcional - a produzir discursos vazios, espalhando ódio e desespero numa vã tentativa de defenderem a situação (local e nacional) e ludibriar a mente dos idiotas. O desespero para mantar o partido no poder é tão evidente que não falam dos graves problemas que afetam a ilha e o concelho, mas sim, só falam exclusivamente do partido. Uma doença. O grupo permanece com a estratégia do sistema do qual pertence que é a de tocar pessoas pelo lado emocional/sentimental e não racional. Este tipo de mentalidade secundariza ou melhor terciariza a ilha apesar das potencialidades existentes (turismo, agricultura, emigrantes, etc.) em benefício do partido e seus clientes, como também tem jogado a ilha no sexto lugar em termos de desenvolvimento, e alimenta ainda dois dos três concelhos mais pobres do país: Santa Catarina com 59% de pobres e Mosteiros com 51,7 % (censo 2013). Esta mentalidade retrógrada, fechada, rígida e perigosa, é também geradora de uma das câmaras que mais gasta com indemnizações no país. A Câmara de São Filipe que já gastou, aproximadamente, 100 mil contos em indemnizações. Oh meu Deus!

Certo é que a oposição na ilha e no concelho de Santa Catarina fazem afirmações graves provenientes das práticas graves cometidas pela situação local e nacional. Disto ninguém duvida. Pois ninguém da situação – nem quem governa (local ou nacional) nem quem os fiscaliza (deputados municipais e nacionais) nem quem os defendem (clientes) - conseguem desmentir o cidadão e Deputado Nacional Jorge Nogueira sobre denúncias relacionadas com as falcatruas do “anel rodoviário”. Ninguém consegue desmentir a oposição de Santa Catarina sobre os assuntos denunciados. Pois são graves, ou melhor, são muito grave as falcatruas relacionadas com a obra do “anel rodoviário”. Esta obra ficará como símbolo da maior corrupção na história deste país. Senão vejamos:

No dia 22 de Janeiro de 2008 saiu no jornal A Semana online que a Ministra  Cristina Duarte deslocou-se ao Sudão para assinar um acordo de crédito com o BADEA para a construção do “anel rodoviário” do Fogo. O projeto estava avaliado em 29,4 milhões de dólares (2,2 milhões de contos) e a obra na altura era de 100 quilómetros da estrada. O anel ligava São Filipe - Cova Figueira – Vila da Igreja – Atalia – Campanas e Ponta Verde.

No dia 6 de Novembro de 2008 em São Filipe Fogo o Primeiro-ministro garantiu aos jornalistas e ao público presente que o financiamento para a execução do “anel rodoviário” já estava mobilizado na totalidade.

Do total do dinheiro destinado para a construção do “anel rodoviário” do Fogo, 150 mil contos foram usados para construir uma aldeia para os amigos e camaradas do partido no poder; um milhão e dez mil contos foram usados para pagar indeminizações à empresa construtura; milhares de contos foram usados para comprar 15 carros de alta cilindrada e de topo da gama para a empresa de fiscalização: três desses carros foram levados para cidade da Praia; um milhão de escudos foram usados diariamente para pagar à empresa construtora sempre que as obras fossem paralisadas, etc. Em suma, dos 100/80 quilómetros de estrada que deviam ser construídas - construíram apenas 31 quilómetros faltando por contruir 69 ou 49 quilómetros, etc. SOCORRO!

Os deputados da situação (local e nacional), os presidentes das três camaras e os clientes não viram e nem ouviram nada disso. Que pena! Aliás, os deputados nacionais da situação têm em mãos o mesmo relatório sobre o “anel rodoviário” que contém os dados vergonhosos denunciados pelo cidadão e deputado Jorge Nogueira, só que por questão de fidelidade ao partido preferem ficar surdos e mudos. A ilha foi ignorada como sempre por esses senhores e senhoras que estão bem da vida à custa desta ilha e deste concelho. Pena! Como fica a consciência desses deputados da situação que deviam assumir-se como deputados da ilha e de Cabo Verde e que, no entanto, assumem-se como deputados do partido e como tal viajaram nestes últimos dias juntamente com os três presidentes das câmaras da ilha para representar o Fogo nos EUA? O discurso poético e lírico do Sr. presidente da Câmara Municipal de São Filipe no ato da inauguração do “anel rodoviário” não foi mais do que uma mera tentativa de branquear a maior corrupção da história do nosso país. Haja paciência e tolerância!

Em Santa Catarina houve, ao longo destes últimos anos, a denúncia sistemática que recai sobre os dirigentes da câmara municipal, que colocam nas contas de gerência despesas efetuadas em obras que não existem no terreno. Tais como: Na conta de gerência de 2008 há uma despesa de 324.578$00 usada na construção de dois currais no concelho; em 2009 uma despesa de 267.600$00 usada na construção de um curral no concelho; no mesmo ano ainda uma outra despesa de 52.000$00 usada na construção de um centro multiusos de Estância Roque; na conta de gerência de 2010 uma despesa de 666.590$00 usada na construção de um jardim infantil e centro multiusos em Monte Vermelho; em 2011 uma despesa de 48.400$00 usada na construção de jardins de Dacabalio e Monte Vermelho; no mesmo ano uma outra despesa de 2.259.940$00 usada na requalificação do Centro Multiusso de Estância Roque. Todas essas despesas pagas, mas no terreno não há essas obras. Sério? Só conferir! Em 2012 há uma despesa de 870.400$00 usada para pagar subsídio de reintegração e ninguém recebeu essa quantia no gabinete do presidente; ainda no mesmo ano há uma despesa de 232.620$00 usada para comprar uma banheira para a casa do presidente.

Na sequência das eleições autárquicas de 2008 e 2012 a câmara cortou subsídios de estudos aos munícipes/estudantes que votaram na oposição; questionado o presidente da camara sobre essas práticas antidemocráticas numa das sessões de Assembleia Municipal ele respondeu que enquanto presidente não apoia ninguém que não o apoia. Desde início da instalação do município implementou no concelho o nepotismo, onde o caso mais gritante é a esposa do presidente com apenas 6ª classe a ocupar o cargo da secretaria do edil; na sequência das eleições autárquicas a câmara paga uma indemnização de 110 contos/mês por um período de 10 meses, fruto da vingança e perseguição politica; a câmara mandou impedir os privados de explorar discotecas e boates nas festividades do Município de Santa Catarina em 2012. Uma atitude absurda e sem nenhum fundamento legal.

São essas e outras práticas gritantes que a oposição da ilha do Fogo e do concelho de Santa Catarina tem vindo a denunciar, cumprindo, assim, escrupulosamente o seu dever de fiscalizar que não lhe é exclusivo, mas também de todos aqueles que conscientemente usam o seu estatuto de cidadania. Todavia, muitos demitiram-se desse estatuto e assumem-se como clientes do partido, ao ponto de pedirem publicamente nas redes sociais aos cidadãos para venderem os seus votos como forma de manter o partido no poder a todo custo. É o cúmulo da falta de ética, do desnorte, da desonestidade, da insinceridade, é tudo, inclusive o maquiavelismo no seu mais elevado grau.

Esses indivíduos (não cidadãos) clientes do partido são especialistas em desviar do essencial; normalizam, comparam e naturalizam o absurdo; fingem ser vítimas, etc., praticam aquilo que o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho chama de “princípio da acusação invertida”, numa vã tentativa de enganar homens prudentes, mas no entanto, manipulam só e exclusivamente a mente dos idiotas.   

Enquanto esses clientes tentam em vão deturpar a verdade, desviar do essencial, normalizar, naturalizar e comparar o absurdo, trazendo discursos ofensivos, baratos e sem fundamentos, a oposição da ilha do Fogo e de Santa Catarina recebe dezenas de mensagens e telefonemas de pessoas ligadas à academia, de pessoas idóneas e responsáveis, de autores de grandes obras, de intelectuais conceituados a parabenezarem-na pela atitude, desprendimento e ousadia em enfrentar um sistema perigoso que alimenta ódio, mentira, crime e sobretudo desonestidade. Em abono da verdade, a oposição no Fogo e em Santa Catarina faz todo este abnegado trabalho porque aprendeu a conquistar tudo na vida à base do mérito e da competência e nunca conquistar algo à base de bajulação, expedientes, ou usando o cartão de militância partidária. Eis a diferença.

Esta oposição vive livre, dorme tranquila e anda de cara levantada, consciente das conquitas que a ilha e o concelho alcançaram, dos atrasos provocados e dos obstáculos que tem de enfrentar para pôr a ilha e o concelho num patamar equiparado às suas potencialidades. Difícil, todavia possível.

Bem-haja oposição!

São Filipe, 09 de Setembro 2014

Alberto Nunes | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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Comentários (2)

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  • Obrigado prezado amigo Casimiro. Gosto e muito de ler os seus textos. Pois, consegue sempre chegar e fazer os leitores chegar à essência da realidade. Em poucas palavras vejo, com clareza, neste seu comentário - as práticas e os feitos desses clientes que consideram o partido o valor supremo de todas as coisas. Prezado Dr. Casimiro - é surpreendente esta sua perceção tão real - cito: "Os crimes, a mentira, a roubalheira e tudo o mais não constituem, nesse universo mental, algo de reprovável. Longe disso! Longe disso, meu prezado Alberto.

    Ex.: falsificação de atestados médicos...E daí?! Ganhámos as eleições!

    O crime é, pelo contrário, a prova derradeira da entrega total ao..."trabalho". Dá conforto, reforça a coesão da equipa e é sinal da "integridade" do militante. Desse "trabalhador" incansável, total, maquiavélico, abnegado, íntegro, totalitário!" Mais palavras para quê? Abraços
  • Artigo forte, e mesmo suculento, de um cidadão activo, consciente e preocupado com o presente e o devir (ou vir-a-ser...) da sua ilha e das gentes mais humildes. Que atitude mais nobre e inspiradora!

    Caríssimo Alberto: toda essa casta de vigaristas/politicantes que ora denuncias, com veemência e propriedade, formou-se, sem qualquer excepção, no cadinho cultural da "democracia revolucionária", de inspiração leninista. Para eles, a "consciência" não existe. O que conta é o PARTIDO.

    Numa passagem memorável, Gellner explica-nos este trabalho do "corpo", que se esgota, afinal, na missão sagrada em prol do Colectivo. É isso que devemos compreender.

    Os crimes, a mentira, a roubalheira e tudo o mais não constituem, nesse universo mental, algo de reprovável. Longe disso! Longe disso, meu prezado Alberto.

    Ex.: falsificação de atestados médicos...E daí?! Ganhámos as eleições!

    O crime é, pelo contrário, a prova derradeira da entrega total ao..."trabalho". Dá conforto, reforça a coesão da equipa e é sinal da "integridade" do militante. Desse "trabalhador" incansável, total, maquiavélico, abnegado, íntegro, totalitário!

    A consciência não é individual, é COLECTIVA. Houve uma espécie de "migração da alma".

    É isso que temos de compreender. E denunciar: é um regime de alienados, doentes, psicopatas.



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