ALBERTO NUNES: Os sapatos que os e santacatarinenes e foguenses precisam descalçar*

. Publicado em Opinião

Os recursos materiais e naturais devem ser articulados com os recursos humanos capacitados e qualificados para poderem surtir os efeitos desejados. Sem esses requisitos e articulações fica difícil promover o progresso e desenvolvimento no sentido mais moderno do termo. Dentro desta lógica pretende-se com este texto fazer uma reflexão sobre o concelho de Santa Catarina e a ilha do Fogo


 

Os recursos disponíveis devem ser aproveitados pelos homens de forma racional e inteligente no sentido de satisfazer as necessidades da população atual sem, no entanto, comprometer o futuro das gerações vindouras. Pelo menos é o que a maioria dos gestores e estudiosos defende quando se fala de desenvolvimento sustentável.

Há, no entanto, regiões com mais recursos do que outras. Também há regiões com predominância de um tipo de recursos em detrimento de outros. Assim, nos países como Angola, Nigéria, Guiné-Equatorial, etc., a economia é baseada no petróleo; nos países como Congo, Guiné-Conacri, Burundi, Angola, etc., a economia é baseada em diamantes, ouro, alumínio, cobre, etc.; nos países como Togo, Ruanda, Benim - onde Cabo Verde pode ser inserido -, a economia é baseada na agricultura, exportação de algodão, café, chá, etc. (Cf. José Luís Livramento, 2013, pág. 89). Os recursos humanos, materiais, naturais, etc. são, sim, importantes. Precisam, porém, ser identificados e sobretudo aproveitados racional e inteligentemente por forma a contribuir para catapultar o desenvolvimento. Os recursos materiais e naturais devem ser articulados com os recursos humanos capacitados e qualificados para poderem surtir os efeitos desejados. Sem esses requisitos e articulações fica difícil promover o progresso e desenvolvimento no sentido mais moderno do termo. Dentro desta lógica pretende-se com este texto fazer uma reflexão sobre o concelho de Santa Catarina e a ilha do Fogo.

Qualquer trabalho sério que visa tributar-se exige do seu produtor o conhecimento. É por isso que antes de proceder à escrita deste texto houve a necessidade de percorrer o território de Santa Catarina e do Fogo no sentido de ter acesso aos dados e estudos relacionados com o concelho e a ilha. Ao fazer este trabalho prévio, depara-se com uma quantidade enorme de recursos ligados à agricultura, à pesca, ao turismo, bem como uma valência forte ligada à emigração. Santa Catarina e o Fogo possuem também recursos humanos qualificados espalhados no concelho, na ilha, nas outras ilhas e na diáspora. Existem recursos humanos originários do concelho e da ilha formados em áreas diversificadas. Por esse caminho descobriram-se grandes potencialidades que - se bem aproveitadas – podem catapultar o concelho e a ilha para um patamar superior ao que se verifica neste momento. Relativamente aos recursos humanos, deteta-se que uns residem no concelho e na ilha, outros nas ilhas e outros, ainda, na diáspora. Trata-se de uma ilha com fortes recursos nos setores de agropecuária, piscatório, turístico e com uma valência forte na emigração. Conhecendo essas realidades, é caso para dizer que o concelho e a ilha não podem continuar com o nível da pobreza que têm agora e com a sequente fuga dos seus recursos qualificados. Pois denota-se que, apesar dessas potencialidades reconhecidas pelos filhos do concelho e da ilha, pelos diversos governantes locais e nacionais, bem assim pelos estudiosos, o Fogo ocupa hoje o sexto lugar a nível nacional. Aliás, hoje fala-se em termos de desenvolvimento: Santiago, São vicente, Sal, Boa vista, Santo Antão, Fogo, etc. Lembrem-se que no passado já houve tempo em que se falava de Santiago, Fogo e das demais ilhas. O concelho de Santa Catarina tem, segundo dados do INE referentes a 2013, uma taxa de pobreza de 59 por cento (%). Como entender então a existência desses recursos no concelho e na ilha e o lugar que o Fogo ocupa em termos de desenvolvimento no contexto nacional e os dados da pobreza existentes em Santa Catarina? Há um claro paradoxo que precisa ser resolvido, sob pena do concelho e da ilha continuarem sistematicamente a assistir a um processo de desenvolvimento adiado.

Dados recolhidos em conversas com as pessoas nas diversas localidades do concelho e da ilha, bem como as conversas travadas com quadros que vivem fora, indicam alguns fatores que têm estado a travar o progresso e o desenvolvimento do concelho e da ilha tais como:

- A excessiva partidarização. Esta realidade constitui um entrave forte e dificulta sobremaneira a conciliação entre as potencialidades naturais e materiais existentes e os recursos humanos disponíveis. A ilha e o concelho foram administrados, nestes últimos anos, por militantes - muito deles sem qualificação técnica e científica e sobretudo sem uma profissão específica -, numa perspetiva de voto e de eleição como forma de defender o emprego. Não houve - como não há - uma visão clara do que se deve fazer para atingir determinadas metas ou determinados objetivos que visam o progresso e o desenvolvimento do concelho e da ilha. Os instrumentos de gestão existentes, como PDM, PDU, PED, PAM, etc., que são importantes orientadores de promoção de gestão qualificada, orientada, rigorosa e que têm como finalidade promover critérios uniformizados, espelhar estéticas e justiça são postos nas gavetas após a socialização. Todavia se, porventura, houver necessidade de implementa-los e na sua execução acontecer algo que põe em evidência interesse coletivo com interesse deste ou daquele militante que é uma fonte de voto para quem se encontra no poder, os decisores privilegiam sempre o militante em detrimento do interesse coletivo. Muitas vezes, as orientações plasmadas nesses instrumentos são aplicadas não em função do que está escrito, mas sim na lógica de beneficiar este e prejudicar aquele. Tendo em conta que o conceito de desenvolvimento é qualitativo - e não quantitativo -, este tipo de comportamento e mentalidade reinante atropela de que maneira o progresso e o desenvolvimento do concelho e da ilha.

- Endeusamento do partido e de figuras partidárias. É, sem dúvida, um outro elemento bloqueador do processo de progresso e desenvolvimento do concelho e da ilha. O partido, que deveria ser entendido como um instrumento do bem ao serviço das pessoas, tendo em conta o nosso sistema, é encarado no concelho e na ilha do Fogo como um meio para atingir determinada realização pessoal e de provocar infelicidade de quem fica fora dele.

- A ausência de debates sérios e francos. No concelho e na ilha do Fogo, os detentores do poder, bastas vezes manipulam e bloqueiam qualquer iniciativa promovida fora do âmbito do poder, como forma de serem eles os únicos promotores de eventos e atividades. Quando as atividades são levadas a cabo por eles selecionam os recursos humanos que devem participar e normalmente primam sempre que quadros que, quando o palestrante termina a sua intervenção, batem palmas e congratulam-se com a ideia exposta e não podem fazer críticas e, nem tão-pouco, discordar. O encontro no concelho dos Mosteiros, no mês de agosto, para comemorar um ano da parceria tripartida entre as três camaras da ilha é um exemplo ilustrativo destas práticas. Os quadros de dissenso são excluídos, pois a exclusão destes contribui para a promoção daqueles. Quando a iniciativa de promoção de evento parte de cidadão estranho ao poder, aparecem homens no poder a entrar no evento no sentido de meter partido no meio. Esta prática é visível mais nos concelhos de Santa Catarina e dos Mosteiros.

- Uso de ecursos do Estado para fins partidários e pessoais. A promoção de atividade com recursos do Estado encarada como atividade do partido. Esta tem sido uma prática recorrente dos homens no poder visto e contestado por todos. Uns contestam em público e outros às escondidas consoante a dependência. Aqueles que não dependem do poder e que são livres manifestam livremente o seu descontentamento em relação a este ato repudiado num Estado de Direito, e os que dependem e que são intimidados e chantageados manifestam-se com medo e não em público.

- Instigação do medo. O concelho e a ilha precisam vencer o medo e combater fortemente a manipulação de consciências. As práticas de corte de subsídios de estudos aos estudantes; de despedimentos de funcionários e depois pagar indeminizações com dinheiro do Estado; a tomada de terreno e de casa, etc., têm colocado os pobres do concelho e da ilha numa situação delicada. Sem outra saída, esses pobres são obrigados a votarem para manter esses militantes do partido no poder conscientes que estão a prejudicar o concelho e a ilha. Porém, entendem que é uma forma de evitar a perseguição e vingança no período pós-eleições.

- Viciação eleitoral. É de sobejo conhecimento que o processo eleitoral no concelho e na ilha é uma farsa. De tantos vícios eleitorais, as pessoas estão a desvalorizar equipas e plataformas para apoiarem os potenciais vencedores, mesmo sabendo de antemão que esta vitória é baseada em fraude só para poderem comemorar no fechar das urnas e chorar durante o período do mandato. Aliás, o jurista José Henrique Freire, num dos seus artigos disse - e bem - que na ilha do Fogo muitas pessoas votam só para poderem queimar pneus e depois chantagear os elementos da oposição.

- União à volta do partido e não à volta dos problemas e soluções para a ilha. As pessoas do concelho de Santa Catarina e da ilha precisam unir-se à volta da ilha, do concelho e dos problemas que entravem o progresso e o desenvolvimento, ao invés de se unirem para defender o partido. Enquanto a prioridade das pessoas do concelho e da ilha do Fogo continuar a ser o partido - e o partido no poder -, independentemente do candidato e da plataforma, o concelho e a ilha vão ver os recursos existentes a adormecerem e o progresso e desenvolvimento a serem adiados. Quem está no poder já afirmou não estar interessado que a situação do concelho e da ilha mude, pois assim como está para eles é melhor.

A situação real de Santa Catarina e da ilha do Fogo exige - pode até parecer exagero, mas não é – missionários altamente vocacionados para trabalharem dia e noite no sentido de desmontar toda essa teia que, por sua vez, criou uma mentalidade perigosa e uma cultura político-partidária doentia.

Bem-haja os missionários para essa Messe!

São Filipe, 19 de Setembro de 2014

Alberto Nunes | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

*Título adaptado de um artigo do escritor moçambicano Mia Couto

 

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