PEDRO ALEXANDRE: Os “bluffs” de Orlando Sanches

. Publicado em Opinião

Orlando Sanches foi visto com um grupo de empresários angolanos, numa audiência com o Presidente da República. Esta aparição é sintomática e deixa antever a verdadeira intenção desse autarca e o que está por detrás da sua decisão de se retirar da política activa para “abraçar outros desafios”

 


A propósito da notícia veiculada num jornal on-line “Orlando Sanches deixa Câmara de Santa Cruz”.


Se, por um lado, não constituiu novidade para muita gente em Santa Cruz o título dessa notícia, por outro ela caiu que nem uma bomba no seio de muitos munícipes deste Concelho que jamais imaginariam uma tomada de decisão, por parte desse autarca, de tamanha envergadura e de consequências imprevisíveis na vida política, económica e social da população deste Município. É que Orlando Sanches sempre que foi confrontado pela oposição sobre rumores de que ele estaria a candidatar-se, a mais um mandato, apenas para garantir uma vitória a favor do PAICV e depois passar o cargo de Presidente da Câmara para o seu delfim António “Sueki” Silva, aquele autarca negava, de pés juntos, que tudo isto não passava de uma estratégia dos seus adversários políticos para o desacreditar junto dos eleitores. Pois, no seu dizer, ele estava pedindo mais um mandato ao povo para cumpri-lo até ao fim e poder concluir o seu programa e projecto políticos que tinha para Santa Cruz. Aqueles que acreditaram nele (e não na oposição) vêm-se agora surpreendidos e estupefactos com essa notícia. Orlando Sanches é um exímio na arte de “dar o dito por não dito”. Vem agora dizer “estar cansado da vida política, preferindo nesta fase da sua vida abraçar outros desafios” e manifestar a sua “intenção de abandonar a vida política activa”. Ora tudo isso seria normal e legítimo a um político que não tivesse assumido, perante o eleitorado que o elegeu, o compromisso de levar avante um mandato de quatro (4) anos e pôr em execução as promessas feitas durante a campanha autárquica. O que não é o caso de Orlando Sanches que prometeu em todas as acções de campanha, caso fosse eleito, levar o seu mandato até o fim.


Ora, a concretizar-se a intenção de Orlando Sanches de suspender o mandato de Presidente da Câmara, nos próximos dias, o eleitorado de Santa Cruz, na sua maioria, coloca-se perante um cenário de irresponsabilidade política, de abandono do barco a meio do percurso e de fraude eleitoral por parte desse autarca para “abraçar outros desafios”. Tal facto, caso venha a acontecer, assacar-se-ão responsabilidades políticas e jurídicas, posto que a figura de suspensão de mandato, plasmada no Estatuto de Municípios delimita em que circunstâncias o titular de um cargo político faz o recurso desse instituto. Só em circunstâncias ponderosas, devidamente equacionadas e por motivos de força maior que o impossibilitam de exercer o seu mandato, durante um certo período de tempo, justificam que o titular desse cargo político faça o recurso de suspensão de mandato. E a suspensão de mandato é temporária e nunca definitiva, como pretende Orlando Sanches.


As razões apresentadas por Orlando Sanches para pedir a suspensão de mandato (não querer acumular dois salários; estar cansado da vida política; preferir nesta fase da sua vida abraçar outros desafios) não são nem ponderosas e nem constituem razões de impedimento no exercício de mandato de Presidente da Câmara. A acumulação de salários, no dizer de Orlando Sanches, como razão para sustentar a sua atitude de abandonar o mandato é, no mínimo, um bluff, falta de lealdade política para com os que votaram nele e um virar de costas aos santa-cruzenses que acreditaram nele e que agora se sentem defraudados. É também uma falácia política e uma falsa questão. Senão vejamos: Orlando Sanches quer com esses argumentos passar a imagem de um homem generoso e um político moralista e sério, querendo dar lições de moral aos seus “camaradas” de partido que auferem de salário do cargo que exercem e mais a pensão de reforma, mas só que o faz de forma desajeitada e tosca. Ora, Orlando Sanches não é obrigado a receber dois salários. Pode, perfeitamente, não querendo receber dois salários, abdicar-se do seu ordenado de Presidente da Câmara e ficar apenas com a pensão de reforma e vice-versa, continuando, deste modo, a exercer o seu mandato de Presidente da Câmara até o fim, isto é, até 2016. Pode ainda, sim, numa atitude nobre e generosa, doar o seu salário ou a sua pensão de reforma a uma instituição de caridade. Ao não fazer isso e já o disse que não vai fazer, pois disse-o expressamente que não vai trabalhar para ficar sem salário, cai por terra a máscara da hipocrisia e fica patente que o seu objectivo é outro: abandonar a Câmara de Santa Cruz para “abraçar outros desafios “conforme é o seu dizer.


Não se compreende que Orlando Sanches, o homem que sempre utilizou, em tempo de campanha, a frase propagandística “Com Santa Cruz no coração” não esteja agora disponível a concluir o seu mandato de Presidente da Câmara e decide, a meio do percurso, ir cuidar dos seus “affairs”. Não é por acaso que poucos dias antes de conceder essa entrevista a um jornal on-line anunciando a sua intenção de suspender o mandato, Orlando Sanches foi visto com um grupo de empresários angolanos, numa audiência com o Presidente da República. Esta aparição é sintomática e deixa antever a verdadeira intenção desse autarca e o que está por detrás da sua decisão de se retirar da política activa para “abraçar outros desafios”.


Orlando Sanches pretende, na hora de saída, não só ser um pseudo “moralista” como também um pseudo “pacificador”, mas não consegue convencer, pelo menos aqueles que o conhecem. Santa Cruz nunca foi “terra sem lei”. Isto só existe nos seus devaneios. É verdade que em tempos de campanha, quando o PAICV era oposição em Santa Cruz, os dirigentes desse partido incitavam os jovens à violência, à perturbação da ordem pública atacando os direitos e liberdades dos cidadãos e criando, nas pessoas, o medo e a insegurança. Todos se lembram das arruaças e vandalismos no centro de Pedra Badejo, em plena campanha eleitoral de 2000, comandadas, de perto, por altos dirigentes e activistas locais do PAICV. Hoje, com o MPD na oposição, não existe mais esse “clima tenso de agressividade e criminalidade” de que fala Orlando Sanches porque o MPD não se engendrou na violência e faz oposição responsável, baseada no confronto de ideias e não de ofensas e pauta por uma postura de equilíbrio e de respeito pela liberdade dos outros. É esta a nossa diferença, em como fazer oposição!


Pedro Alexandre Rocha | Deputado da Nação

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar