ALBERTO NUNES: Ilha do Fogo e Santa Catarina – a questão do (sub) desenvolvimento

. Publicado em Opinião

Quem vive em Santa Catarina percebe, sem muito esforço, que aqui perdura o interesse pessoal e partidário. Aliás, os interesses do concelho e dos munícipes foram subordinados, pelos homens no poder e seus apoiantes, ao interesse pessoal e partidário

 


“Não apague a lâmpada do outro para que a sua possa brilhar!”. Mahatma Gandhi


O sucesso da administração, das coisas públicas, nas sociedades modernas está relacionado com estudos prévios, recolha de subsídios, socialização de estudos, debates de ideias, elaboração de planos e orçamentos de forma participativa. Esta estratégia praticada hoje em vários países do mundo e com sucesso precisa ser implementada na ilha do Fogo com urgência a bem da instituição de uma sociedade diferente desta onde vivemos. Pois, aqui quem se encontra no lugar da decisão exclui intencionalmente quadros qualificados (por estes pensarem diferente e criticam o que está errado) e absolve quadros/militantes bem como promove concursos viciados deixando de lado o mérito e a competência, criando espaço para cultivar a mediocridade como forma de alimentar o próprio ego. Os dirigentes investem na mediocridade, no intuito de trazerem para si indivíduos obedientes, sem opinião, sem posição, que endeusem o chefe e que são obrigados a bater palmas e dizer sim senhor.


Esta prática perversa à excelência e ao mérito levada a cabo por esses homens que ocupam, circunstancialmente, o poder, contrasta com uma das máximas de John Maxwell acerca da liderança, onde o autor afirma que “grandes líderes escolhem bons colaboradores” no entanto, combina também com uma outra máxima do mesmo autor que diz “líderes fracos escolhem péssimos colaboradores”. Pensa-se que as pessoas que assumem lugares de decisão não devem ter medo de debates, ou de ideias contrárias, principalmente no Estado de Direito Democrático como o nosso. Afinal, esses requisitos são ingredientes da democracia e Cabo Verde é um país democrático desde 1991.


A implementação da democracia no nosso país custou caro ao povo cabo-verdiano. Este povo que batalhou, contra seca, fome, ditadura, etc. deve continuar a lutar para evitar que um grupinho amante da ditadura põe em causa a liberdade e democracia - bens raros neste nosso continente – a África.


Este introito leva-nos a refletir seriamente sobre a sessão da Assembleia Municipal de Santa Catarina do Fogo, decorrida no dia 27 de setembro do corrente ano. Para ser sincero saímos daquela sessão, na qualidade de munícipe, triste e preocupado com o rumo que o nosso concelho tomou. Durante e depois da sessão refletimos e perguntamos a nós mesmos: como compreender uma pessoa do tipo do nosso presidente de Assembleia Municipal, com tanto conhecimento e experiência na administração consegue aceitar, conviver, apreciar e aprovar documentos carregados de irregularidades, ilegalidades, etc. com toda tranquilidade!? Será que no disco duro desse e dos outros senhores do sistema, existe o único ficheiro que contém a palavra – PODER? Esse poder serve para resolver interesses pessoais e partidários independentemente da lei, moral ou ética?


Quem vive em Santa Catarina percebe, sem muito esforço, que aqui perdura o interesse pessoal e partidário. Aliás, os interesses do concelho e dos munícipes foram subordinados, pelos homens no poder e seus apoiantes, ao interesse pessoal e partidário. Pena que muitas pessoas percebem este mal que tem assolado o nosso concelho, porém, preferem ficar calados por uma questão de salvaguardar os seus interesses e os do partido. É, deveras, preocupante a dimensão desta realidade! Meu Deus do céu, como é possível, em pleno século XXI, apreciar e aprovar uma deliberação como a que aprova a criação e cobrança de uma taxa de entrada ao Parque Natural do Fogo através do serviço de Portagem em Curral d´Asno, sem estudo prévio, sem socialização, sem ouvir a população da Chã das Caldeiras (localidade no interior do Parque), sem ouvir os operadores económicos, turísticos, etc., sem que os deputados lessem e entendessem convenientemente o conteúdo do documento, e sem prever seriamente o impacto que isso poderá causar à localidade da Chã das Caldeiras, ao concelho, à ilha e ao país!


O argumento do líder da bancada da situação de que a introdução desta taxa irá aumentar o fluxo do turismo é, no mínimo, ridículo. Pois, trata-se de um argumento sem fundamento sabendo que não existe um estudo que nos oriente para tal. Trata-se, simplesmente, de uma afirmação especulativa que visa justificar o voto a favor da bancada da situação.


Como pode um cidadão do tipo do presidente da Assembleia, não perceber que a Câmara mandou cortar água para os munícipes presentes na sessão, garantindo assim este liquido apenas aos eleitos? Na sessão anterior pedimos à funcionária da Câmara uma garrafa de água e percebemos algo de anormal, pois, ela fingia não ver e nem ouvir o nosso pedido. Demos, no entanto, o benefício da dúvida. Chegando nesta última sessão entrou de novo na sala da sessão com uma caixa de água e começou a distribuí-la apenas aos eleitos e os munícipes ficaram de queixo caído com essa atitude tão mesquinha. Um munícipe presente chamou a atenção dos presentes para este facto e a Câmara nas respostas como sempre ignorou a preocupação desse munícipe.


Um outro aspeto que tem sido prática nas sessões da Assembleia tem a ver com a omissão por parte do Sr. Secretário da Assembleia relativamente às afirmações ofensivas e pouco pedagógicas do Sr. presidente da Câmara. Na sessão anterior, nós, os munícipes, colocamos um conjunto de preocupações à Câmara e ao Sr. presidente e este em respostas diz publicamente que não iria responder “PORCARIAZINHAS”.


Este facto foi posto na ata da seguinte forma, citamos: “A certa altura da sua intervenção o presidente utilizou a palavra ‘porcariazinha’ e imediatamente foi chamado atenção pelo Presidente da Mesa da Assembleia e reconsiderou-se pedindo desculpas pelo que disse”.


Tem sido recorrente por parte do Sr. Presidente da Câmara usar expressões do tipo para responder aos munícipes. O Sr. presidente já apelidou as intervenções dos munícipes de – “discursos de macaquinhos”, bem como, já afirmou em plena reunião da Assembleia que NÃO APOIA QUEM NÃO O APOIA e o secretário da Assembleia intencionalmente omitiu tal expressão na ata, alegando que é irrelevante. Pena é ver esse mesmo secretário a introduzir suas intervenções nas sessões da Assembleia apelando pela ética!


As atividades promovidas pelas Câmaras da ilha com recursos públicos onde são convidados apenas indivíduos obedientes e do sistema para ouvirem discursos do chefe, bater palmas e propagando nas ruas que o palestrante é inteligente é, no mínimo, absurdo no mundo de hoje. A comemoração do aniversário da parceria tripartida nas festividades do dia do município dos Mosteiros; o II fórum do Desporto em Santa Catarina; o programa “Djarfogo na Merca” e o ato de empossamento do Curador e os respetivos membros, etc. são exemplos que ilustram sobremaneira a exclusão de quadros a favor dos militantes/quadros.


Todavia, como já dissemos, hoje quem tem medo de debates, de ideias adversárias e que cirurgicamente exclui quadros qualificados de fórum, palestras, workshops, etc., não elabora estudos, não planifica, não define estratégias e metas está condenado ao fracasso e ao insucesso. Toda essa manobra vigente na nossa sociedade que visa escamotear a verdade/realidade e o esforço titânico dos homens que ocupam os lugares de decisão em impedir o cidadão crítico de dar o seu contributo para o seu concelho, ilha e país serve apenas para adiar o desenvolvimento e o progresso dessas regiões. A prática de desviar de questões essenciais e trazer para o centro do debate questões da superfície que faz escola na nossa sociedade, deve ser banida com urgência. Ao excluir o mérito e a competência, o medíocre triunfa. A partir desta prática pode-se compreender perfeitamente o alerta do pacifista Mahatma Gandhi: “Não apague a lâmpada do outro para que a sua possa brilhar!”


Alberto Nunes | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

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