UM CURTO HISTORIAL SOBRE CABO VERDE E OS TEMPOS PRIMÓRDIOS NA LOCALIDADE DE TARRAFAL DE SÃO NICOLAU

. Publicado em Opinião

Na famosa viagem do comandante-mor Pedro Álvares Cabral, rumo ao Brasil, com escala de abastecimento e descanso, na ilha de São Nicolau, (Caminha 1500), estavam a bordo Bartolomeu Dias que primeiro cruzara o cabo da Boa Esperança no sul da África, o “Capitão do Fim” como o chamou Fernando Pessoa; Nicolau Coelho que acompanhara a expedição de Vasco da Gama à Índia dois anos antes; Duarte Pacheco, descobridor de terras na África e na América, e o franciscano D. Henrique, futuro inquisidor, que trazia consigo, mais sete outros frades e seria quem oficiaria a 1ª Missa no Brasil. O substituo oficial de Cabral, seu vice-comandante, era um fidalgo espanhol, refugiado na corte de D. Manoel, chamado Sancho de Tovar


Convém, porem, salientar que, até hoje, desconhece-se a biografia de Caminha. O escrivão faleceu em Calecute, em dezembro de 1500, onde se encontrava a serviço da corte.


A carta do escrivão Pedro Vaz de Caminha, iniciada em 26 de abril e concluída no dia 1º de maio de 1500, é composta por 27 folhas de texto e uma de endereços e anotações, e ela havia sido enviada imediatamente para o rei D. Manuel, o Venturoso, por intermédio de Gaspar de Lemos, anunciando a boa nova da descoberta de terras.


Ela tornou-se a “Certidão de Nascimento” do Brasil, como a chamou Capistrano de Abreu. O documento, no entanto, só se tornou público em 1790, sendo a carta publicada a primeira vez no Brasil em 1817, pelo geógrafo Manoel Ayres do Casal, no primeiro volume da “Corographia Basílica”, porém não em sua íntegra, excluindo-lhe trechos que considerava inoportunos.


Nesta nota, salientamos que escrever sobre Cabo Verde ou qualquer uma das ilhas, como a ilha de São Nicolau, requer muita dedicação, amor e respeito por essa ilha, outrora de destaque nacional a nível da cultura e literatura.


A Ilha de São Nicolau, além de ser rica culturalmente, é uma ilha rodeada de um mar rico em peixes e de uma invejada história social, além da famosa produção agrícola, com destaque para o cultivo do café que remonta ao ano 1709, ano em essa planta foi introduzida na agricultura Saonicolauense.


É a partir desse tempo que começam a aparecer alguns dos nomes que destacam na história dessa ilha situada a noroeste do Arquipélago, (Gaspar, Freitas e BADJID), este último de apelido real de Almeida.


Decorridos cerca de 75 anos, (1784), a localidade de Tarrafal, apesar de ser apenas um local frequentado por alguns pastores da ilha, passou a contar com a contribuição de um ancoradouro (local de desembarque e embarque, de cargas e pessoas), que entretanto, era pouco utilizado, devido à inexistência de acesso ao interior da ilha, o que dificultava as possibilidades de negócios de trocas entre os ocupantes dos barcos que ancoravam a Baia de acesso a esta zona do Sul da ilha.


De acordo com as nossas investigações, existem documentos que nos dá conta do início, mais tarde, das relações entre as Colônias da América e as de Cabo Verde, na qual se destacam as trocas de utensílios de pesca por peixe, legumes, gado, etc., etc..


Conforme dados recolhidos, essas relações iniciaram uns 31 anos após a introdução da cultura do café na ilha, (1740's), na sequência das escalas das embarcações americanas, nos ancoradouros/portos de Cabo Verde, para comprar Sal e Escravos.


Durante os calamitosos anos de 1700's, vários foram os acontecimentos que assolaram e dizimaram algumas das populações das vulneráveis ilhas do Arquipélago de Cabo Verde.


De entre outras, destaca-se o surto epidêmico na ilha de Santo Antão (1742), fome na ilha de Santiago (1755), fome nas ilhas da Boavista e Sal (1765), fome geral, no Arquipélago (1773), fome na ilha da Boavista (1789), fome na ilha de Santo Antão (1790), ataque de piratas holandeses à Vila da Praia (1796), ataque de piratas franceses à ilha Brava (1798) e para terminar o século, aconteceu a inesperada erupção vulcânica na ilha do Fogo em 1799. De salientar que São Vicente só veio a ser habitada a partir de 1833.


Contudo, nem tudo foi ruim para os pobres habitantes destas ilhas, pois, durante esses anos de 1700's iniciava-se também a louvada emigração de cabo verdeanos para a América, o que levou a que o primeiro consulado da América na África Sub Sariana fosse estabelecido em Cabo Verde, em 1818.


Tarrafal era na altura uma diminuta localidade composta por alguns casebres aonde habitavam os poucos pescadores e pastores que aventuravam por esses lados da ilha.


Mas, as excelentes condições naturais faziam com que o ancoradouro servisse de apoio à frota, designadamente baleeiros Americanos que viriam, mais tarde, a estabelecer uma companhia de pesca de baleia; conforme registos de 1874, que dão conta da presença de um Açoreano que se fixou residência nessa localidade a Sul/Oeste da ilha, dedicando-se à pesca da baleia (B.O. de Cabo Verde, No 153).


Há quem diz que o surgimento e desenvolvimento de Tarrafal deve-se às condições privilegiadas do seu ancoradouro e, às especiais condições da pesca nas imediações.


Já em 1886, um Senhor pelo nome de José Antônio de Carvalho, solicitou e foi-lhe concedido uma licença para a construção de um barracão, na praia de Tarrafal, para abrigo de embarcações e utensílios de pesca.


Ainda nas duas primeiras décadas do Século XX, a população de Tarrafal se resumia a uns poucos habitantes, constituídos essencialmente por pastores e pescadores fortuitos que desciam das zonas altas para temporadas de pesca. Conforme registos que provavelmente farão parte do futuro Museu de Tarrafal, essas gentes que vinham do interior alojavam-se em grutas e casebres muito precários.


De acordo com a portaria No 242 de 20 de Novembro de 1896, publicada no B.O. No 48, do mesmo ano, foi aforado a Praia do Porto do Tarrafal, ao Senhor José Gaspar da Conceição, para abrigo de pequenas embarcações e utensílios de pesca de Baleias.


José Gaspar foi um dos primeiros a se estabelecer no local, vindo do interior do Concelho, para se dedicar à pesca da baleia, cujo óleo vendia ou trocava por produtos americanos, diversos, incluindo utensílios e apetrechos de pesca, - anzóis, arpões, fisgas, etc., etc., produtos esses comercializados mais tarde.


Por volta de 1910/1920, uns Espanhóis instalaram-se no Tarrafal, atraídos pela pesca da Baleia e a abundância de peixe, que viriam mais tarde utilizar para o início da indústria da conserva de peixe, em salmoura, com pretensões de posterior exportação para o país de origem, onde o produto era muito apreciado.


Já nessa altura se verificava uma certa tendência dos poucos habitantes, no processo de pesca de baleia para a troca por produtos Americanos.


Conforme se pode verificar, ainda hoje, existem alguns pontos brancos nas Rochas, os quais eram os tais pontos de controlo das aparências das baleias no mar que dava acesso à baia do Tarrafal e nos arredores dos ilhéus, Raso e Branco.

Um indivíduo atento e que se interessa pela história da pesca de Baleia no Tarrafal, será capaz de identificar os tais pontos brancos, ainda ali existentes, locais elevados onde os pescadores e colaboradores mantinham a vigilância constante, e de onde anunciavam a presença das baleias, através de um fumo típico e destinto.

Conforme dados recolhidos, esses colaboradores, ao criarem o fumo, anunciando a presença das baleias, desciam logo a correr pela encosta a baixo para poder chegar a tempo de embarcar nos botes e fazer parte do "Crew" que deslocava da baia em direção ao local onde se encontravam as baleias, engajando na pesca, para a posterior troca/venda nos barcos que escalavam Tarrafal.

A pesca da baleia, na altura, era uma forma de sobrevivência dos que nada mais tinham para sustentarem-se a si mesmos e ou mesmo, os familiares que, na maioria ainda viviam distantes, no interior da ilha.


Conforme os mais velhos, conhecedores das factos relatados pelos seus antepassados, os novos habitantes Espanhóis, na altura, desenvolveram as suas atividade de pesca e conserva do peixe, por apenas dois anos, nas instalações pertencentes ao Comerciante José Gaspar.


Quanto aos Espanhóis, dizem que uma certa noite desapareceram do local sem deixarem rastos sequer da sua saída, destino ou paradeiro.

Com a debandada dos Espanhóis, criou-se uma lacuna na pequena sociedade Tarrafalense, que viria a ser preenchida mais tarde com a chegada de um outro comerciante de nome António Assis Cadório, vindo do Tarrafal de Monte Trigo, Santo Antão, instalando-se na localidade, com os seus equipamentos para produzir conservas, efeito para o qual construiu uma unidade industrial, contratando sucessivamente pescadores vindos da Madeira, para introdução de novas modalidades de pesca.

Já nessa altura, com a abolição do tráfego de escravos (1876) o interesse pelo arquipélago diminuía, situação que só se inverteria no século seguinte, após a Segunda Guerra Mundial.

Contudo, não podemos deixar de salientar os registos da Pauta de Exportações deste final do século XIX, que contava com a contribuição da venda de Tartarugas, Milho, Aguardente, Tabaco, Âmbar, Óleo, Sementes de Purgueira e Sal. Uma rica Ementa cabo verdeana.

Termino esta peça, chamando a atenção dos responsáveis nacionais para a necessidade de se criar melhores condições de investigação e preservação do patrimônio nacional, de acordo com a lei 102/III/1990. Curiosamente, assunto acordado entre Cabo Verde e as Nações Unidas, ainda antes da independência, em 1972.

Um exemplo crasso do nosso desleixo patrimonial, esta vívida no local de nome Lombinho, em Calejão, São Nicolau, onde ainda se pode ver as quase ruínas da casa onde nasceu o histórico professor, Dr. Baltazar Lopes da Silva que se continuar assim, acabará por desaparecer, muito brevemente.


Em progresso...

 


Carlos Fortes Lopes | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

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