LUIS JOSÉ FORTES, BALTAZAR LOPES DA SILVA E A TRISTE REALIDADE SANICOLAUENSE

. Publicado em Opinião


Luis José Fortes, (Pá Liz), o segundo filho de José Gaspar Fortes e Felicia Maria Silva, nasceu a 30 de Abril de 1899, na localidade de Caleijão

 

 

De acordo com os dados de registo e familiares a primeira filha, Tia Bia, havia nascido em 1896 e a terceira, Tia Fina, em 1902.

Tia Fina, terceiro filho, foi a última do casal e a que não teve a oportunidade de conhecer o pai que emigrou, para América, quando ela ainda era um bebê de apenas 1 ano de idade, 1903.

Com a emigração e, mais tarde, morte do pai dos filhos, Mã Flicia não teve outro remédio senão recorrer à ajuda dos familiares mais próximos, na criação dos filhos órfãos.

O falecido José Gaspar Fortes tinha dois irmãos; o Ricardo Gaspar Fortes e o Antonio Gaspar Fortes, todos filhos do casal Gaspar e Rufina Fortes de Calejão, São Nicolau.

O Ricardo havia mantido a sua residência em Calejão e o Antonio Gaspar Fortes também, vindo mais tarde a mudar para São Vicente onde passou a trabalhar pela destacada companhia Miller e, onde exerceu cargos de responsabilidade e destaque sócio/profissional, na época.

Em São Vicente o Antonio viria a ser conhecido por Antone Nica e não pelo nome próprio de Antonio Gaspar ou Fortes.

Pelo que foi possível confirmar, através das informações que o tio Zé Fortes mantém retidas na sua memória enciclopédica, o nome do Antone Nica adveio da relação forte entre este e a sua tia Bia/Mã Nica a primeira filha do casal Gaspar e irmã da tia Fina e do Pá Liz.

Ricardo Gaspar Fortes era casado com Nica Djanor parente da Mã Flicia que por sua vez era casada com Pa Djodjinh (José Gaspar Fortes), o que fazia com que essa família se tornasse numa família robusta e muito interligada pelos laços de familiaridade existente em ambos os lados dos ramos da árvore familiar.

José Gaspar Fortes, meu bisavô, era conhecido por todos pelo nome de Djodjinh, o qual foi-lhe atribuído na sequência da morte do pai e a mudança de residência para o Racont, (pequena localidade próxima da Vila da Ribeira Brava) para passar a viver com Nha Nácia e Nho Zé Manel ou seja "Nho Djodje", como este era também conhecido por todos, razão pela qual decidiram atribuír o grau diminutivo ao órfão José Gaspar Fortes "Djodjinh" que passara a fazer parte da família de Racont, a casa de onde, ainda muito cedo, partiu para a emigração para os Estados Unidos da América do Norte, deixando os filhos na tenra idade de crianças.

O filho, meu avó Pá Liz não recordava muita coisa do seu pai Jose Gaspar Fortes, "Djodjinh", pois este havia emigrado deixando-o com apenas quatro anos de idade, o que talvez tenha-o causado alguma instabilidade emocional, com danos psicológicos que viriam a se manifestar mais tarde nas suas precipitadas tomadas de decisão relacionadas com a emigração e, outros assuntos de carácter profissional, como a escolha que veio a fazer em 1945.

À procura de uma vida melhor, na Terra do Tio Sam, Djodjinh teve pouco ou quase nenhum sucesso. Após apenas três anos de trabalho, acabaria por falecer, vítima de uma febre desconhecida.

Nessa altura, 1906, Pá Liz tinha apenas 7 anos de idade e não teve muitas recordações para contar aos netos do seu falecido pai.

Com a morte do Djodjinh, Mã Flicia passou à categoria de viúva, com apenas trinta e seis anos de idade, mãe de três filhos órfãos, Maria, Luis e Rufina, esta última a mais jovem de todos, era a tal bebê de apenas um ano de idade.

Conforme as palavras de muita gente que conheceu Mã Flicia na época e, relatos do sobrinho "Tio Zé", esta, apesar de ter ficado viúva muito jovem e ter tido muitas ofertas de casamento, optou por jamais casar-se.

Sendo de uma família grande, forte economicamente e bem estruturada, Mã Flicia não teve muitas dificuldade em criar os seus três filhos órfãos.

Além de ser uma mulher trabalhadeira e lutadora, ela contou com a ajuda de alguns primos e primas, em primeiro e segundo grau familiar, uma delas era uma tal de Benvinda, filha de uma senhora pelo nome de Julinha que era natural da ilha da Boavista.

Esta Julinha, da Boavista. era, por sua vez, filha de uma senhora (nome desconhecido) que era irmã da mãe da nossa Mã Flicia, o que os colocava no segundo grau de parentesco.

Conforme testemunhas vivas, Mã Flicia era uma senhora de uma excelente memória e, que se preocupava em contar o historial do percurso da família Gaspar Fortes, aos mais jovens e demais interessados, para que não se corresse o risco dos mais novos perderem a sua identidade familiar.

O ORGULHO FAMILIAR E O PERCURSO INVEJOSO DE PÁ LIZ

Apesar de ter ficado órfão de pai, Pá Liz cresceu e estudou na Vila da Ribeira Brava, frequentando a escola primária, completando a Quarta Classe ou Segundo Grau como se chamava na altura e que era apenas alcançável para um número reduzido de cabo verdeanos.

Com apenas 15 anos de idade, alguns parentes residentes na América quiseram que ele emigrasse para a terra do Tio Sam, o que não constituía nenhum problema na altura, tendo em conta que na época só bastava ter dinheiro para custear as despesas da viagem e alguns filhos de famílias com recursos podiam emigrar para os Estados Unidos da América do Norte, pagando a quantia referente à longa viagem de barco entre Cabo Verde e América.

Com Pá Liz, talvez tenha sido o ressentimento humano, por ter perdido o pai naquelas terras desconhecidas ou um outro motivo que ele nunca revelou para os familiares mais próximos, este acabou por rejeitar a proposta dos familiares residentes na terra do Tio Sam, negando fazer a longa viagem de barco.

Era uma época de forte emigração de cabo verdeanos para América, a maioria como marinheiros nos baleeiros que escalavam a ilha da Brava, no sul do Arquipélago, passando por São Miguel Açores com o destino final de New Bedford, Massachusetts, para a descarga do óleo das Baleias.

A emigração para os EUA era uma saída plausível para os que tivessem a sorte de serem contratados para fazer a viagem que durava cerca de oito (8) meses e que contava com algumas escalas nalgumas ilhas das Caraíbas.

As crises que assolavam as ilhas de Cabo Verde eram incentivos permanentes para a emigração precoce de muitos que viam a emigração como a única forma de sobrevivência e suporte da família.

Entretanto, Pá Liz, por motivos até o momento desconhecidos, decidiu que não iria arriscar na emigração, na altura, e que deveria ficar na sua terra natal, aprendendo uma profissão de destaque, o que acabou por acontecer, ao se enveredar pela profissão do avô.

A aprendizagem da profissão de Carpinteiro não lhe foi muito difícil e ou estranha, pois ela já existia na família. O avô, João Miguel Andrade, era considerado o melhor Tanoeiro da ilha e, com ele Pá Liz não só aprendeu a ser fabricador de Vasilhas, Barris e Selhas como também aprendeu a carpintaria geral.

Com o andar dos anos, Pá Liz passou a ser conhecido como um rapaz muito habilidoso nas artes de carpintaria/marcenaria e de tanoeiro.

Contudo, alguns anos se passaram e Pá Liz, como muitos outros, mostrou-se interessado em emigrar. Só que nessa altura as exigências já eram muitas e emigrar para América já não era assim tão fácil como nos anos antes de 1921, ano que a lei de migração dos EUA foi modificada pelo Congresso Americano.

A partir da aprovação da nova lei da emigração americana, só entravam no território americano, filhos de pais com nacionalidade americana, e teriam que ser filhos de casados. Os filhos solteiros não eram abrangidos por essa nova lei e a única forma de emigração estadunidense para estes era através de uma casamento com um pessoa com nacionalidade americana.

Essa lei de 1921, também dava uma abertura para a entrada de pessoas/homens que estivessem matriculados como marinheiros dos barcos das empresas americanas da pesca da Baleia.

Foi aí então que Pá Liz resolveu matricular num barco de pesca da Baleia, embarcando primeiro num Veleiro de pequena cabotagem, até à ilha da Brava onde residia um empresário que contratava marinheiros para a longa viagem e pesca de Baleias.

A ODISSÉIA AMERICANA

Chegando à ilha da Brava, Pá Liz conseguiu a contratação e logo de imediato embarcou num outro veleiro com destino a São Miguel-Açores, aonde iria iniciar assim a sua nova trajectória profissional, embarcando no Baleeiro Claúdia de New Bedford, com destino ao alto mar, para a pesca, e posteriormente ao porto da cidade de New Bedford, no Estado de Massachusetts, USA.

Conforme o próprio Pá Liz, a viagem demorou cerca de oito meses e no percurso, além da pesca passaram por umas ilhas nas Caraíbas onde o Capitão e o Despenseiro fizeram um negócio de compra de produtos ilegais, em São Domingos, que viria mais tarde a ser descoberto pelas autoridades americanas.

Conforme contou Pá Liz, um dos vendedores do contrabando ao saber que, após ter sido rejeitado pelos tripulantes, na sua tentativa de venda, e os mesmos terem comprado outros produtos ilegais num outro vendedor de contrabando, o mesmo acionou todos os seus contactos, fazendo chegar a notícia do transporte de contrabando, a bordo de Claudia New Bedford, ainda antes deste chegar ao seu destino, depois de mais uma escala na ilhas Indies.

De acordo com as palavras do próprio Pá Liz, quando já contava ficar na América, talvez através de um casamento, a sorte fugiu-lhe, deixando-o preso, sem cometer nenhum crime ou qualquer irregularidade.

O barco no qual havia viajado como marinheiro, na pesca de Baleias, havia sido surpreendido com o transporte de uma carga ilegal, (Genebra de São Domingos) tendo o Capitão e o Despenseiro sido presos, por serem donos do contrabando, e a inocente tripulação estrangeira repatriada, cada um para o seu país de origem, sem ter sequer conhecimento, durante a viagem, da existência do contrabando a bordo do navio.

A surpresa foi tanta que os próprios cúmplices ficaram estupefactos ao verem os inspectores aduaneiros (engravatados) a trocarem-se para "fatos de macaco", retirando das malas de ferramentas, as "unhas de cabra" e seguindo de imediato em direção ao local onde os garrafões com o contrabando encontravam-se escondidos (em baixo do soalho do porão do navio).

Ao comprovarem a presença do contrabando, a tripulação foi logo apreendida, sendo que o Capitão e o Despenseiro viriam mais tarde a ser condenados pela polícia aduaneira que levou os dois para a prisão, mantendo o resto da tripulação estrangeira presa dentro do baleeiro em causa, à espera da ordem de deportação do país.

Com essa chicotada aduaneira dos inspectores em New Bedofrd, Pá Liz e os demais companheiros viram as suas pretensões de emigração na terra do Tio Sam ficar por apenas a cativante vista que tiveram durante o aproximar do barco, ao Porto de New Bedford.

Sendo o barco preso, os estrangeiros a bordo permaneceram no porto de New Bedford durante três noites, sem poderem sequer pisar o solo da América e ou visitar familiares.

Contudo, alguns familiares foram informados por pessoas ligadas à indústria Baleeira de New Bedford que veio a as conceder oportunidades exclusivas de visitar os marinheiros presos, antes da viagem de regresso ao país de origem.

De entre outros, Pá Liz recordou que havia sido visitado por Nho Beto, Tio Antoninho (seu primo) que lhe ofereceu um fato que viria a ser uma relíquia do Pá Liz, por muitos anos.

E assim terminava a Odisseia americana de Luis Alves Fortes (Pá Liz) que foi "repatriado" para Cabo Verde, onde retomou "o seu osso de ofício" de Carpinteiro/Marceneiro/Agricultor.

OS ANOS QUE SEGUIRAM, AS RECORDAÇÕES E O CASAMENTO

Tio Zé recorda que nos anos 40's e 50's, Pá Liz ainda exibia o tal fato que o primo havia-o oferecido nos longínquos anos de 1923.

Regressando à casa dos pais, Pá Liz retomou as suas amizades, que eram muitas, além das namoradas que eram fruto dos seus reconhecidos dotes de conquistador de sucessos.

Contudo, de entre as muitas namoradas, a jovem de pele clara e olhos azuis, nascida e criada em Boqueirão - Inês Ana Brito - viria a conquistar o amor do jovem conquistador acabando os dois por casar no ano de 1934, este na jovem idade de 35 primaveras, e a noiva na de 23.

Tio Zé, o primeiro filho, viria a nascer em 1936, durante a ausência do pai que se encontrava numa expedição na ilha de Santa Luzia, com o Carismático, Sr. Jaime da Casa Neves, dono, na altura, de uma boa parcela da ilha e que, de quando em vez levava alguns carpinteiros e pedreiros de São Nicolau para efectuar trabalhos nas suas propriedades na ilha de Santa Luzia.

Tio Zé, foi então alcunhado de menino que veio de Santa Luzia, enquanto quatro anos mais tarde viria uma outra filha que também foi alcunhada de menina do Sal, por o meu avô ter na altura viajado para a ilha das salinas, em serviço dos italianos que iriam iniciar a construção do primeiro aeroporto do Sal, o que acabou por não acontecer, devido ao início da Segunda Guerra Mundial.

AS MIGRAÇÕES INTERNAS

Já no fim do mês de Outubro, o que já demonstrava claramente que as Azáguas iriam ser fraquíssimas esse ano, Pá Liz decidiu migrar para a ilha do Sal, para trabalhar na construção do Primeiro Aeroporto de Cabo Verde, o que acabou por não demorar sequer um mês.

Com o início da Segunda Guerra Mundial e a intervenção Portuguesa, a pedido dos aliados contra Hitler, foram suspendidos os trabalhos dos italianos que eram, na época, governados pelo Fascista Mussolini, aliado do Hitler e um perigo para a estabilidade do tráfego no Atlântico, caso construíssem o aeroporto que poderia vir a ser utilizado como base militar da aliança do Hitler.

Com a chegada do contingente militar do continente (Portugal), os italianos foram expulsos do Sal deixando a ilha ao gosto das salinas, a sua produção e escassa exportação para o único ponto mais próximo que era a costa africana.

A paralisação das obras, no Sal, fez com que Pá Liz regressasse de imediato à ilha natal, onde nem permaneceu um(1) mês, tendo logo de imediato, seguido viagem de novo, desta vez rumo à ilha de São Vicente, onde os Portugueses iam iniciar finalmente a construção do primeiro hotel e melhorar as condições dos dois quartéis militares na ilha do Porto Grande, (Fortin e Morro Branco).

Os portugueses haviam, finalmente, concluído de que com o aumento da presença dos ingleses e o desenvolvimento das operações no Porto Grande, em Mindelo, havia uma necessidade premente de criação de condições logísticas para o acompanhamento da evolução industrial da ilha da Cidade do Mindelo e, foi então que resolveram construir o primeiro hotel na ilha, (1940).

O ano de 1940 havia sido um ano difícil, devido à escassez das chuvas, mas com o "ganha pão" nas lides de carpintaria, lá ia desenrascando a família que já começava a crescer, com a adição do casal de filhos (José e Cristina).

Nessa altura, Pá Liz já era um jovem carpinteiro de sucessos, fruto das experiências que recebeu com o Sr. Zé Tau e o próprio avô Jon M'Djel (João Miguel) que era o melhor tanoeiro da ilha (fabricador de vasilhas, selhas, barris, etc., etc.)

Além das já referidas técnicas da carpintaria, existia uma outra de destaque, mas limitado a poucos na profissão de Carpintaria, que era o montar de Asnas (armações de madeira para criar o teto de escolas, casas de empena quebrada, armazéns, quartéis e cadeias, etc., etc.).

Dois anos mais tarde, com a deslocação a São Vicente e permanência por um pequeno período de dois anos, Pá Liz conseguiu manter toda a família junta.
Entretanto, após a guerra mundial, os trabalhos em São Vicente começaram a escassear mas Pá Liz, sendo um reconhecido bom carpinteiro encontrava-se empregado e rejeitou o convite dos portugueses para deslocar à ilha do Sal dar continuidade ao projecto de construção do aeroporto.

OS DISSABORES DA VIDA E A RECOMPENSA DE UMA AMIZADE ANTIGA.

Essa decisão do Pá Liz, em rejeitar o convite dos portugueses, para ir trabalhar na ilha do Sal, viria mais tarde a confirmar ser um erro grave, esquecendo-se este de que as obras nos quartéis em São Vicente tinham pouca duração, pois dom o fim da Guerra e o regresso à normalidade nesses quartéis da cidade do Mindelo, as suas prestações deixariam de ser úteis.

Com esta decisão mal concebida, vieram outros dissabores que viriam a fazer marca no seio da família. Pá Liz acabou por ficar desempregado por um período de aproximadamente um ano, o que obrigou a valente e determinada mulher - Má Nêz - a trabalhar nas obras do estado para sustentar a si e aos filhos, porque Pá Liz talvez envergonhado pela falta de condições para sustentar ou ajudar no sustento dos filhos, nem enviava uma correspondência sequer, dando notícias do seu estado de saúde, e de desemprego em que se encontrava.

Muitas foram as pessoas que criticaram a ausência de Pá Liz, indagando a razão que levou a mulher, Mã Nêz, a ir trabalhar nas frentes de mão de obra do Estado.

Nessa altura, Nho Chico Nené era o Cabo Chefe da zona e, sendo um homem respeitado e de uma ponderação razoável, quando ouviu o comentário de algumas mulheres que criticavam a decisão de Mã Nêz que sendo uma mulher casada não devia trabalhar nas frentes de obra, Nho Chico Nené foi logo de imediato em defesa de Mã Nêz, advertindo: "o que? aquel e qué ambjer; marid ca podé el ta jda, nem qué trabadjod na Stod".

Enquanto isso, Pá Liz estava sendo contemplado com a simpatia e amizade do irmão mais novo de um velho amigo - Baltazar Lopes da Silva - pessoa com quem Pá Liz havia encontrado, casualmente, durante um passeio pelas ruas da cidade, à procura de emprego para o sustento pessoal e familiar.

Desse encontro, após os cumprimentos iniciais, Dr. Baltazar, nessa altura, Reitor do Liceu Gil Eanes, perguntou ao Pá Liz: então Luis, tão não estás a trabalhar? Ouvindo a resposta negativa do Pá Liz, este fez-lhe uma segunda pergunta: Sabes trabalhar na Carpintaria Naval? Pá Liz respondeu: Tenho um pequeno jeito. Foi aí então que o Dr. Baltazar replicou: Então espera. O barco Senhor das Areias, vai ser arrastado e vou falar com o mestre, para ver se ele te arranja um lugar.

Era uma Sexta Feira de manhã e o Dr. Encontrava-se a caminho do Liceu mas, decidiu desviar o caminho e ir falar com o responsável das obras de restauração do navio de três mastros que com a avaria do motor, demorava cerca um dia a fazer a viagem de Santo Antão para São Vicente.

Sendo um homem respeitado por todos, Dr. Baltazar não teve nenhum problemas em conseguir o lugar para o Pá Liz e logo à tardinha informou ao desempregado de que havia-lhe conseguido um lugar nas obras de restauração e que já estava intimado a comparecer nos estaleiros, na Segunda Feira, para iniciar as suas novas funções de carpintaria naval.

Na Segunda Feira, pela manhãzinha, Pá Liz arrumou as suas ferramentas que imaginou serem necessárias para exercer as funções de ajudante aprendiz da Carpintaria Naval e lá foi ele rumo aos estaleiros.

Chegando nos estaleiros, foi de imediato informado pelo responsável que os lugares já estavam todos preenchidos e que já não havia lugar para ele trabalhar. Dito isto, Pá Liz regressou à casa, onde ao entrar encontrou com o Dr., de saída para o Liceu, que surpreso pergunto: Então Luis, não foste trabalhar hoje? Pá Liz respondeu-lhe que o homem havia lhe dito, essa manhã, que os lugares já haviam sido preenchidos e que não havia mais lugares.

O Dr. Baltazar, como não brincava com coisas sérias e não gostava de ser desrespeitado, de imediato disse para o Pá Liz: Espera aí, porque o homem me disse que tinha um lugar e que o lugar seria teu, portanto, agora, tenho que saber o que está a acontecer.

Ele entrou para dentro de casa, revoltado e, pegou de um pedaço de papel e escreveu um bilhete que dizia o seguinte: "Se não tiver trabalho para o homem, entrega-lhe 400$00 agora mesmo". Entregou o bilhete ao Pá Liz enviando de volta ao local de trabalho, para entregar o documento ao responsável.

Chegado aí, Pá Liz entrega o documento, como havia sugerido o Dr. Baltazar, e logo assim que o responsável abriu e leu o bilhete, este começou a tremer e replicou; Oh, Oh, Oh, pega e trabalha, pega e trabalha. Desculpa-me, desculpa-me.

Em 1946, um carpinteiro ganhava 25$00 por dia, Pá Liz, como mestre ganhava 30$00. Portanto, como é óbvio a quantia de 400$00 era uma fortuna para se pagar alguém que nem sequer havia trabalhado um segundo.

Aliás, muito pouca gente ganhava esse montante, todos os meses, e além disso, o responsável pela restauração do navio não queria ter que enfrentar o destacado Dr. e melhor advogado de Cabo Verde na época.

O envolvimento do Dr. Baltazar neste emprego fez com que Pá Liz mantivesse empregado por um longo período de tempo. Pois, era hábito, na altura, conforme os trabalhos ia diminuindo se diminuía os funcionário mas, neste específico emprego o Pá Liz estava blindado pela sombra do Dr. e, apesar de ser aprendiz e desconhecido, diminuía-se o número de trabalhadores, diariamente, e o Pá Liz permanecia empregado, por medo do Sr. Dr. Reitor Baltazar Lopes da Silva e a sua influência social na cidade e em Cabo Verde.

Com a chegada do Tio Zé, vindo de São Nicolau, depois de ter completo a Quarta Classe/Segundo Grau, e vivendo Pá Liz no quarto do quintal do Dr. Baltazar, e com um novo emprego, lá foi Tio Zé, também arranjar um primeiro emprego, com a ajuda do Dr., na Drogaria Leão.

Contudo, conforme conta Tio Zé, o emprego foi de pouca dura, porque passados alguns meses de constante abuso do dono da Drogaria, um belo dia o mesmo decidiu bater no miúdo Jose Alves Fortes e, este de imediato deixou o seu primeiro emprego e foi informar ao pai, o que havia acontecido.

Pá Liz ficou furioso mas, não quiz informar o Dr. e nem quiz fazer muito barulho, devido às circunstâncias sociais da época, e optou pelo silêncio perante o tal dono da Drogaria, procurando um outro emprego para o filho. O que acabou por ser como ajudante do próprio pai, nas lides da Carpintaria.

A antiga amizade entre Manuel Lopes-irmão mais velho do Dr. Baltazar- e Pá Liz, homem sério e de uma amizade leal havia dado frutos com gostos a tropical.

O Dr. Baltazar era um homem feliz, por ter ajudado o patrício, velho amigo do irmão, agora seu amigo, e o Pá Liz havia recuperado os ânimos e a sua estima, com o novo emprego e a presença do seu primeiro filho, companheiro e amigo de todas as horas.

A arte de carpintaria naval e fabrico de botes de madeira acabou por ajudar Pá Liz imensamente.

Com a aprendizagem desta nova arte, Pá Liz aumentava os seus dotes de artista polivalente que não só entendia da moldagem da madeira como também concertava fios de ouro, de cujo, havia aprendido soldar peças em ouro.

 

DR. BALTAZAR LOPES DA SILVA E OS MEMBROS DA FAMOSA DGS

Tio Zé conta que a polícia PIDE da DGS entrava em qualquer local ou serviço que quisessem mas, no Liveu Gil Eanes não, porque o Dr. não os deixava.

Conforme Tio Zé, contado por outros; houve um momento, na história do Liceu Gil Eanes, em que as policias da DGS tentaram entrar ali e o Dr. não os deixou, advertindo-os da seguinte forma: "Aqui a autoridade sou Eu. Se Eu quiser polícia Eu chamo, mas como não tenho necessidade neste momento vocês não entram aqui".

Com esta advertência os policias deslocaram do local sem nenhuma palavra ao Reitor. Dizem que, após esse dia, os policias da DGS passaram a dedicar algum tempo na tentativa de apanhar o Reitor em situações de ilegalidade, mas sem sucessos.

Baltazar Lopes da Silva era um homem elegante e bem constituído que destacava em qualquer lugar onde chegasse.

E, conforme Tio Zé, a estátua colocada na praça dos correios de Sao Nicolau, vila da Ribeira Brava, está longe de apresentar a imagem do homem que ele conheceu e muito bem. Aliás, Tio Zé vai mais longe para pedir que seja analisada a persecuções sociais dessa defeituosa escultura artística, e que se crie uma escultura digna de um dos heróis da literatura nacional.

Já quanto aos muitos dizeres sobre o abandono da ilha por parte desse filho pródigo, muitas versões que se ouve pelos lados de Sao Nicolau não correspondem à verdade dos factos.

Diz Tio Zé que dos vários dialogos que o Dr. teve com Pá Liz, durante as suas diárias convivências na sua casa em Mindelo, o mesmo havia confessado o porque da sua ausência da ilha que o viu nascer.

Pois Baltazar havia estudado até completar o Quinto Ano do Seminário/Liceu e continuando os estudos no Liceu de Mindelo, se onde seguiu para a Universidade de Lisboa, em Portugal.

Voltando atrás, às razões que levaram com que o Dr. Baltazar não regressa-se mais tarde à ilha de São Nicolau;
Tudo começou com um desentendimento entre o pai do Dr., o Sr. Pedro Lopes - Administrador na ilha - e o Conde Correia que era, na altura, Padre, Presidente da Câmara e um homem forte, devido ao poderio da igreja católica.

O padre havia exercido o seu poderio para destruir a vida do Administrador, solicitando ao Governador que desonerasse o Administrador, causando-o danos irreparáveis que o obrigou a vender terrenos e casas, incluindo a casa de Lombinho, em Calejão, São Nicolau, onde havia nascido Baltazar Lopes da Silva. (Não confundir com as personagens fictícias do livro Chiquinho)

Relembro aos leitores que o Sr. Pedro Lopes, pai do Dr. Baltazar, havia, anteriormente, desempenhado as funções de Director do Seminário/Liceu, às ordens do Conde Bossa.

Com a desoneração do cargo de Administrador da ilha, o Sr. Pedro Lopes acabou por vender a casa de três quartos, no Lombinho, Calejão, onde havia nascido o filho Baltazar Lopes da Silva, assim como os três primeiros filhos do casal Pá Liz e Mã Nêz, de 1936 a 1941, e muitos outros imóveis, para poder continuar a suportar as despesas dos estudos dos filhos.

A compradora de nome Ana (Nhana d'Nha Antonha Djodja), emigrante nos EUA, foi em quem Pá Liz havia rendado a casa onde nascera o Tio Zé, Tia Bia Inês e a minha mãe Cristina.

De acordo com familiares e conhecidos, Nhana d'nha Antonha Djodja nunca regressara ao país para desfrutar dos seus bens imobiliários, em Calejão.

Conforme Tio Zé, de acordo com informações recolhidas junto do Pá Liz, Dr. Baltazar Lopes da Silva, não regressara à sua querida ilha natal, para não ter que confrontar o Conde Correia, na altura, para não ser prejudicado também, nos seus estudos.

De qualquer das formas, Baltazar Lopes da Silva não deixou de confessar ao pai que um dia havia de cobrar vingança das maldades que o Conde havia perpetuado contra a sua família, o que, para muitos foi a causa do desgosto estampado no rosto do sobreviventes Pedro Lopes e que acabou, finalmente, por ditar a sua morte.

A MORTE DO ADMINISTRADOR PEDRO LOPES E A REVOLTA DO FILHO

Com a morte do pai, Dr. Baltazar Lopes da Silva, não perdeu tempo em escrever uma longa e detalhada carta, ao Conde Correia, com cópia enviada ao Governador, manifestando o seu repúdio pelo sucedido com o pai e a vontade de ajustar as contas com este que causou tantos danos emocionais e psicológicos ao falecido pai.

Como diz Tio Zé, a carta era tão célebre que ela foi registada para que houvesse confirmação da sua recepção e, ela foi também partilhada por alguns, na sociedade Sanicolauense, o que levou com que Nho Marco, homem de Calejão e muito conhecido em Sao Nicolau, (antigo guarda do aeroporto da preguiça), decorasse a carta, na sua totalidade, até o ponto de ter ditado a carta ao Sr. Antone Calazange, aquando da sua estada em São Nicolau, para o levantamento do processo das Águas de Torno.

Dizem que Nho Marco, sendo um homem muito inteligente, foi capaz de decorar o conteúdo dessa famosa carta e, a recitava a qualquer momento que as circunstâncias requeressem, destacando sempre o parágrafo que descrevia o Conde como um Gorila a correr atrás das mulheres, em vez de manter a sua escolha religiosa de pregador e protector dos pobres indefesos.

A famosa carta do Dr. Baltazar, dirigido ao Conde, com conhecimento do Governador, iniciava com a seguinte frase demolidora:

"Excelentíssimo Conde Correia, Mulheres e Filhos", expressão essa que deixava transparecer a vida pessoal do Conde e a revolta do subscritor para com a forma como o Conde havia vindo a actuar na sociedade, tirando vantagens da sua posição social para aproveitar das fraquezas das mulheres, cometendo infidelidade, de acordo com as doutrinas da igreja católica e, os males que havia causado só pai e à família.

Conforme o análise de alguns conhecidos e amigos do Dr. Baltazar Lopes da Silva, o poderio da igreja esteve sempre envolvido nessas maldades do Conde e pouco podia fazer o pai Administrador, numa época que o próprio Salazar temia a igreja.

Como conta o Tio Zé, julga-se, pelas palavras do próprio Dr., de que as razões que levaram a que se afastasse da ilha que o viu nascer e do qual se orgulhava muito, advinham da impossibilidade de angariar apoios para a sua causa revoltosa. Pois, a maioria da família Lopes era estritamente católica e, por conseguinte, pouca simpatia apresentavam para qualquer um que tentasse confrontar algum membro da igreja com acusações consideradas supérfluas, infundadas ou mesmo desrespeitadoras.

As mágoas do Dr. Baltazar, para com a ilha de São Nicolau já vinham de longa data, desde a morte do irmão Augusto que; conforme "Chiquinho" houve negligência médica por parte dos representantes da saúde na ilha, que não foram céleres suficientes para evacuar o irmão para São Vicente, onde poderia ter tido um melhor cuidado médico e, talvez sobrevivido.

As pressupostas causas da morte do irmão foi tão dolorosa e revoltante que o Dr. dizia que se viajasse para Sao Nicolau, teria que evitar passar pelo Cemitério (fund d,Tabuga) para não ter que relembrar a morte do irmão.

Comparando as épocas distintas: já nos anos longínquos de 1940's, Dr. Baltazar sempre relembrava ao Pá Liz das fraquezas das populações, no que dizia respeito ao medo de realização de manifestações populares, nas ilhas de Cabo Verde.

Dr. Baltazar dizia: "Oh Luis, gent d'nos terra e cobord!!! Oia, no ta combina na Calejo pa bá faze um manifestação na Stanja, bsot e um dúzia ta ma mi, ma uns ta tchga na trabessar d'tsgura és ta fla; tchome ba da Nho Clipinh um fala, ots ta tchga na Ladé d'Lapa és ta fla; tchome fca aia ta mija. Ots ta tchga na Pened és ta fla tchome ba da Nho Flone um falinha, mta fca mi so i mta tchga na Stanja és ta ftchome na cadeia". "Má tem um cosa, na Sant Antôn sés falo bom és ta bai és ta bai te fim de consequências". Fim de citação.

Dr. Baltazar descreveu assim a Psicologia Popular do povo cabo verdeano. Nesse pequeno diálogo com Luis José Fortes (Pá Liz) Dr. Baltazar deixou transparecer a vulnerabilidade dos Sanicolauense, enquanto destacava a determinação e lealdade dos Sant Antonenses.

Nesta óptica, se analisarmos os acontecimentos que vêm fazendo manchetes, todos os dias, nas redes sociais, podemos concluir, livremente, de que o povo destas ilhas do Atlântico, além de ser pacífico, sempre foi um povo sem muita expressão revolucionária e sempre deixou-se ser malhado pelo poderio político e religioso.


Em progresso...

 


Carlos Fortes Lopes | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

 

comments

Comentários (0)

Cancel or

Comentar


Código de segurança
Atualizar