DOM ILDO FORTES: Novamente a caminho

. Publicado em Opinião

Voltemos com coragem e humildade ao caminho da Luz e da Verdade que é o próprio Jesus Cristo; rasguemos os nossos corações, mais do que as nossas vestes (Cf. Jl 2, 12) em sinal de autêntica conversão

 

     
Quaresma é um tempo forte de graça e tempo de fortalecer o coração (cf. Tg 5, 8); uma oportunidade especial que nos é dada. Há lugares especiais  e há tempos especiais para cada um de nós; este é o tempo oferecido à comunidade cristã para voltar ao caminho, recolocar-se no fiel seguimento de Jesus Cristo. Voltar ao coração de Deus: Aquele que nos criou por Amor, para Ele, e incessantemente nos atrai com o seu amor de Pai. É Ele a nossa força, porque  a força do Amor procede d’Ele.

Amou-nos loucamente em Cristo  Jesus,  o Pródigo que saiu da Casa e no Seu regresso anseia por levar junto do Pai, todos os seus irmãos transviados, perdidos, esmorecidos, fracassados na marcha...    

                        
Com facilidade nos prendemos demasiado na dimensão quaresmal que soa a zona sombria e cinzenta; Talvez porque o nosso pecado fala por vezes alto de mais a ponto de ensombrar a nossa alegria  cristã. Mas, se é verdade que precisamos pôr diante de nós o nosso pecado, a nossa miséria e o nosso nada, muito mais verdade é que devemos colocar diante de nós o Amor e o Perdão de Deus. Ele nunca se cansa de nos perdoar. “A Quaresma convida-nos a praticar o espírito de penitência, não na sua acepção negativa de tristeza e de frustração, mas na de elevação do espírito, de libertação do mal, de afastamento do pecado e de todos os condicionamentos que possam dificultar o nosso caminho para a plenitude da vida” (São João Paulo II, Audiência geral de 16/02/1983).  
                 
Voltemos com coragem e humildade ao caminho da Luz e da Verdade que é o próprio Jesus Cristo; rasguemos os nossos corações, mais do que as nossas vestes (Cf. Jl 2, 12) em sinal de autêntica conversão, porque uma vez convertidos ao coração de Deus, seremos um bom instrumento de paz junto dos nossos irmãos e na nossa sociedade sedenta de reconciliação e de paz.

Quaresma é aproximarmo-nos de Deus que por Sua vez nos remete para os irmãos para os amarmos à Sua maneira. Este tempo  propenso à partilha do que somos e do que temos, convida-nos a exercitarmos de novo a prática da caridade.

O Papa Francisco na mensagem quaresmal deste ano dirige-nos um forte apelo a não nos deixarmos  vencer pela tentação da indiferença. Deus não é indiferente a ninguém. “Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos”. É  desejo do Papa que “os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!”.

Recentemente estive em visita pastoral à Paróquia de Santo António das Pombas, que se situa num dos Concelhos mais pobres do nosso país – o Paúl. A mim chocou-me muito  ver uma zona com ribeiras tão férteis e rica em água e plantações, mas com um povo a passar as maiores privações. Encontrei pessoas que vivem praticamente num buraco, sem luz do sol, gente cuja sua iluminação em casa é uma pobre lamparina de lata, alimentada a petróleo, outros vivem sob tectos que ameaçam ruir em qualquer momento, meninos que talvez a sua única alimentação quente seja aquela que a escola, com a generosidade de alguns benfeitores, consegue proporcionar-lhes.

Assim, a proposta de Renúncia Quaresmal para este ano, será para as famílias mais necessitadas desse Município. A Paróquia de S. António das Pombas e a Caritas, encarregar-se-ão de acudir aos casos mais gritantes de miséria humana e material, com a nossa ajuda fraterna. A Igreja, como lembra a mensagem do Papa, é communio sanctorum [comunhão dos santos], não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos.

A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum. Deixemo-nos conduzir pelo amor e pela generosidade!

Aproveito para informar que o fruto da Renúncia Quaresmal de 2014 foi de 320.246$00 e que como havíamos indicado, será para Associação Cabo-verdiana de Luta contra o Cancro. Deus olha a sinceridade do coração e recompensará a nossa generosidade em favor dos seus pobres. O papel de sensibilização para a partilha, por parte dos pastores e outros animadores da comunidade, é importante.    

 

 

Boa caminhada quaresmal com Deus e com os irmãos no coração!  

 

Ildo Fortes | Bispo de Mindelo | mensagem quaresmal 2015

 

 

 

 

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