NELSON BRITO: Não temos ligação nem com São Vicente e nem com o Sal

. Publicado em Opinião

Neste momento, a única ligação marítima regular de passageiros que São Nicolau tem, é com a Praia e de duas em duas semanas. Não temos ligação nem com São Vicente e nem com o Sal. Vamo-nos desenrascando e aqui entre a incompetência do Governo em gerir Cabo Verde

Estou aqui para denunciar mais uma vez a total falta de respeito do Governo de Cabo Verde para com a ilha de São Nicolau e a sua grave incompetência na gestão do país, relativamente aos transportes marítimos.

Falta de respeito porque mais uma vez o Governo deixou ou permitiu que a ilha de São Nicolau ficasse completamente isolada no período da páscoa.

A embarcação Fast Ferry Liberdadi, era a única embarcação de transporte marítimo de passageiros que na altura ligava São Nicolau com o país, através de ligações regulares com São Vicente e a Praia, uma vez que há cerca de 2 meses que São Nicolau está sem qualquer ligação com a ilha do Sal.

Foi só o navio Kriola ser proibido de navegar por questões de segurança, que retirou-se de imediato o Liberdadi do norte do país para substituir o Kriola, sem se importar minimamente sobre os efeitos que esta decisão teria, principalmente, na ilha de São Nicolau, que como já disse, ficou sem qualquer ligação marítima com o país. Como consequência imediata, tivemos muitas pessoas que queriam viajar e passar a páscoa ou em São Nicolau ou fora da ilha e que não puderam; professores que foram passar as férias da páscoa nas suas ilhas e que ficaram retidos, regressando só agora recentemente, tendo inclusive falhado os primeiros dias de trabalho do 3.º trimestre; tivemos mais uma vez a economia da ilha altamente prejudicada por falta de transportes; e mais um golpe na já fraca confiança de qualquer investidor em investir na ilha de São Nicolau. Isto acaba com qualquer tentativa de desenvolvimento e crescimento.

É evidente que as ilhas do Fogo e da Brava precisavam ser atendidas, pois também não podem ficar isoladas. Todos concordamos com isso. Claro que temos que fazer compensação. Temos que ter espirito de entreajuda, de solidariedade. Temos que ser um país. Há um problema com o Kriola, o Liberdade compensa e permite ligações entre todas as ilhas para onde viajam, com sacrifícios para todos e servindo a todos. O que não se faz é deixar a ilha de São Nicolau, ou qualquer outra, completamente isolada, sem nenhuma ligação marítima durante um período tão importante e movimentado como as férias da páscoa. A agenda de transformação e o cluster do mar chegaram a isto.

Felizmente que as pessoas de São Nicolau manifestaram-se na própria ilha e noutras. Graças a Deus, parece que as pessoas de São Nicolau e de Cabo Verde acordaram. E, como resultado, fez-se uma viagem extraordinária do navio Sotavento ainda na última semana para levar as pessoas retidas em São Vicente. Pena que não temos nem TCV, nem RCV em São Nicolau, caso contrário os protestos seriam ainda maiores e sobre tantos outros abusos. Pagamos impostos como todos, mas não temos direito à comunicação social pública.

Neste momento, a única ligação marítima regular de passageiros que São Nicolau tem, é com a Praia e de duas em duas semanas. Não temos ligação nem com São Vicente e nem com o Sal. Vamo-nos desenrascando e aqui entre a incompetência do Governo em gerir Cabo Verde. 

É de todo inaceitável que após 14 anos de governação do PAICV, após 14 anos da agenda de transformação do Governo, termos como resultado um país sem ligações marítimas regulares de confiança.

Em pleno 2015, após 14 anos da agenda de transformação do PAICV, não temos transportes marítimos inter-ilhas satisfatórios; temos ilhas em Cabo Verde que ficam sem ligações marítimas regulares durante meses, todos os anos.

E a única solução que o Governo encontrou nesses 14 anos foi apoiar financeiramente a aquisição dos Fast Ferry, através da atribuição do subsídio de 100 mil contos. O problema é que apesar do Governo jurar e garantir que se fizeram estudos nos nossos mares para a construção das embarcações, apesar do Governo dizer que são barcos adequados para os mares de Cabo Verde, os Fast Ferry não servem para os nossos mares. São embarcações que são financeiramente insustentáveis. As dívidas foram-se acumulando até que o próprio Governo teve que entrar como sócio maioritário da empresa. Por outro lado, o navio Kriola, com apenas 4 anos nos nossos mares e de acordo com a Autoridade Marítima e Portuária não garante condições de segurança aos passageiros, tripulação e mercadorias. O Kriola tem apenas 4 anos e no entanto, já está, de acordo com a AMP, com “problemas de segurança e de estrutura, de estanquicidade, de combate a incêndio e transporte de cargas” porque não aguenta os nossos mares. Ninguém pode garantir quando estará novamente em condições aceitáveis para navegar e o custo para a sua recuperação. E o que fazemos até lá? Ficamos a minguar o Liberdadi? A desenrascar? Corremos o risco de ficar com o país completamente paralisado? E daqui a quanto tempo teremos o Liberdadi com os mesmos problemas? E os custos para Cabo Verde? É isto o Cluster do Mar?

Um mar de propaganda, de basofaria e de incompetência, onde ninguém assume responsabilidades. 

 

 

Nelson Brito | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

 

 

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