CARLOS FORTES LOPES: O esquecido assassinato do secretario de estado, Renato Cardoso

. Publicado em Opinião

Tudo aconteceu no início da noite de 29 de Setembro de1989. Renato Cardoso foi assassinado por alguém que teve a proteção total do sistema ditatorial existente em Cabo Verde, de 1975 a 1991

 

Esse crime hediondo continua a perturbar a sociedade civil cabo verdeana que impacientemente espera para que a companheira do Renato na altura do crime, fale para o povo de Cabo Verde e acabe de vez com o silêncio a que foi obrigada, até hoje.

O autor ou autores só serão descobertos e punidos se a testemunha ocular resolver falar e acabar com o mito à volta dessa morte derivada da inveja política e sócio cultural contra o malogrado.

As circunstâncias em que o crime foi cometido são do conhecimento da testemunha que as engoliu para satisfazer as ameaças dos criminosos.

Nós que vivemos essa época, nunca havemos de esquecer a forma como o partido único PAICV executava o seu regime de excepção para se defender de eventuais manifestações de revolta e indignação individuais ou colectivas.

Ainda em pleno 1975 criaram a lei de boatos (decreto-lei 36/75) que punia autores de rumores contra o Estado e seus dirigentes.

Já em 1976 com o decreto-lei 95/76 as forças de segurança e a polícia eram atribuídos o poder de prender qualquer pessoa durante um total de cinco meses sem culpa formada.

Implementando, pouco a pouco, o ditatorial e opressor sistema exibidos pela Cuba e USSR, em 1977 Cabo Verde avançava com a instalação do famoso tribunal militar (decreto-lei 121/77) constituído por juízes nomeados sob proposta do ministro da Defesa que podia julgar civis classificados pela polícia como subversivos.

Leia essas que só viriam a ser revogadas pela Assembleia Nacional Popular em Maio de 1990.

Portanto, durante esses quinze anos de opressão e ditadura governamental o exército e a polícia constituíram a força de proteção do regime e dos seus dirigentes e todos os métodos, incluindo tortura para reprimir dissidências e crimes.

Esse regime do Comandante Pedro Pires, nunca sentiu-se inibido de ameaçar através de ações forte e duros de opressão social.

Foi nessa sombra da opressão social que o assassínio desse ilustre jovem membro do governo ficou escondida.

Como já é habitual e a própria História mundial poderá confirmar, os assassinatos ocorridos durante governações ditatoriais dificilmente são resolvidos e na maioria das vezes os envolvidos acabam sempre por ser os que mais proclamam a inocência dos governantes e falam da inexistência de condições para a execução do assassinato.

Basta retrocedermos no tempo, relembrando os acontecimentos que seguiram a tragédia ocorrida na praia de Kebra Canela, parte da orla marítima da Capital do País, para certificarmos o ditado já muito bem conhecido que também foi aplicado neste caso de assassinato do Renato Cardoso.

Quem não se lembra do porta-voz do regime que apressou-se, logo no dia seguinte a garantir que não havia motivação política para assassinar Renato Cardoso.

Entretanto, se dermos uma olhadela mais profunda e cautelosa, teremos a desgraçada oportunidade de verificar um detalhe perturbador e incriminadora. Pois, nem sequer o governo de Pedro Pires teve o cuidado de alterar o programa de viagens dos seus dirigentes, na altura.

O Primeiro Ministro Pedro Pires manteve a viagem para os Estados Unidos e o Presidente da República Aristides Pereira acompanhado do Ministro das Forças Armadas e Segurança partiu para Angola dois dias depois.

Segundo relatos vindos a público, a polícia judiciária portuguesa chamada para investigar concluiu que a cena do crime não foi convenientemente salvaguardada e possíveis indícios do crime perderam-se (???).

A sociedade cabo verdeana, como bem ilustra a folha de jornal até hoje presente na montra do Djibla em S.Vicente, ainda pergunta “quem matou Renato Cardoso"?

E é esta a angústia que permanece no seio da população da ilha que o viu nascer e onde tem ainda muitos dos seus velhos amigos.

Mas, apesar dos pesares, o legado do saudoso Renato Cardoso continua sendo celebrado como um grande cidadão, escritor, músico e figura marcante da politica, nestes dez (10) grãozinhos de terra.

 

A Voz do Povo Sofredor

 


Carlos Fortes Lopes/ Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

 

 

 

 

 

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