CARLOS FORTES LOPES: Algumas notas sobre a carismática ilha e São Nicolau

. Publicado em Opinião

A ilha de São Nicolau, considerada pelos colonizadores como a ilha mais fresca do Arquipélago, foi a preferida dos Europeus para estabelecer as suas residências no Arquipélago. De se destacar a localidade de Calejão, situada na encosta mesmo à frente ao Aeroporto da Preguiça e local onde nasceu o destacado escritor Baltazar Lopes da Silva

 

Conforme conta o meu tio-padrinho, José Alves Fortes, que por sua vez havia tido a oportunidade de recolher alguns dados, através dos conhecimentos da sua avó paterna, Felicia, que descrevia para o neto José, acontecimentos que ela havia testemunhado e outros contados pelo avô Miguel Andrade, homem que viveu entre os séculos XVIII e XIX, tendo morrido centenário.

Tio Zé conta que a minha bisavó Felicia lhe havia transmitido muitos conhecimentos da história local e de São Nicolau, com destaque para a localidade de Calejao, onde era originária.

Por se situar numa encosta onde prevalece a presença de um ar fresco e sadio, a localidade de Calejão era a preferida pelos europeus que escalavam a ilha e decidiam permanecer aí por algum tempo.

De entre alguns ingleses, destacam-se as presenças dos que construíram vivendas em Calejão, exactamente onde é hoje propriedade de um casal francês residente nessa localidade, e que marcaram a história da localidade.

O Mr. Richards e um outro Inglês, assim como o bispo da diocese de Cabo Verde que acabariam por escolher a ilha de São Nicolau para viver, deixaram sempre transparecer que o clima ameno da localidade havia sido o motivo dessa escolha de residência permanente.

Tudo indica de que com base nos dados metereológicos destintos dessa pacata ilha de São Nicolau, em 1866 viria a nascer um dos primeiros símbolos de Cabo Verde.

Nascia o Seminário-Liceu de São Nicolau, no vale da Ribeira Brava, capital da ilha.

Este estabelecimento de ensino secundário foi também o primeiro do tipo na costa ocidental do continente africano, o qual era frequentado por alunos das outras ilhas do arquipélago e de outras paragens, como da Guiné, etc., etc..

De entre os vários professores que eram alvo da atração institucional desse liceu-seminário destacam-se os nomes de Cônego Coimbra, Cônego Silva, Cônego Galvão, Cônego Correia, Cônego Bouças e outros tantos como o Monsenhor Bouças, natural de Braga, Portugal, que ao apaixonar-se pela ilha decidiu estabelecer residência permanente na ilha onde acabou por morrer e enterrado no Cemitério da Vila da Ribeira Brava-Tabuga.

Da Inglaterra havia também chegado o carismático professor de inglês, Mr. Saint Aubyn.
Homem muito católico, Saint Aubyn, lecionava inglês no Seminário e acabou por casar-se com uma Saniclauense de nome Geny, formando uma família SaintAubinesa que viria a fazer parte da história da ilha.

Alunos de várias origens ingressavam no Seminário situado no vale da vila da Ribeira Brava, que com as quedas abundantes das chuvas, na altura, criavam outros problemas sanitários devido à estagnação das águas fluviais que atraiam mosquitos que por sua vez criavam outros riscos de saúde pública.

Foi nessa óptica de protecção da saúde pública que o Bispo Don Joaquim de Barros, morador em Calejão, decidiu, em 1895, mandar construir uma nova sala de aulas para os Seminaristas, em Calejão, no local onde ainda hoje está localizado a Capela da Aldeia.

Essa nova sala de aulas era ocupada apenas nas alturas de estagnação das águas fluviais no vale da Ribeira Brava.

Já no ano de 1903 o mesmo bispo mandava construir o Seminário/Orfanato de Calejão, que passaria, inicialmente, a funcionar como um polo dependente do Seminário da vila de Ribeira Brava.

O Seminário de São Nicolau existiu até o ano de1917, sete (7) anos após a implantação da República Portuguesa.

O Seminário era propriedade exclusiva da Missão Católica e os Republicanos/Políticos portugueses, tiveram que insistir até convencerem a Missão Católica a proceder-se ao encerramento das portas deste destacado e, hoje, histórico Seminário.

Com a decisão final do encerramento do Seminário, uma onda de tristeza apoderava-se da população da ilha, do Arquipélago e outros países da costa Ocidental da África e mesmo de alguns Europeus, que tinham o Seminário como o único trampolim para um futuro risonho das suas famílias.

Como os professores não queriam deixar a ilha, o Cônego Bouças, com a colaboração do Cônego Correia, abriram, logo de seguida, um Instituto pedagógico onde passaram a lecionar classes Liceais, até o antigo Quinto Ano do Liceu (5o Ano).

Com a tragédia do encerramento dos Seminários, o de Calejão passou a ser utilizado como cadeia de presos estrangeiros, sendo que o encerramento coincidiu com o fim da primeira guerra mundial, na qual Portugal havia participado ao lado dos Aliados.

Informações recolhidas dão-nos conta de que nessa altura foram encarcerados um total de cento e vinte (120) Marujos Alemãs, apreendidos pelos militares portugueses, nos mares de Cabo Verde e que ali permaneceram por alguns tempo.

Contudo, a prisão desses 120 alemãs, deixou também alguma marca lendária na Aldeia de Calejão. A lenda que dizia: "Antônia Maria Pão D'alemão, bstid um blusão, cent i vinte pa Calejão".

 

 

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