ILDO FORTES: Quaresma é converter, mudar de mente e coração

. Publicado em Opinião

Na sua tradicional mensagem de quaresma, o bispo de Mindelo exorta os cristãos à conversão e garante que Jesus misericordioso “atrai” com o Seu amor

 

 

 

Quaresma é caminho para a Páscoa. Deus deseja conduzir-nos para fora, para alcançarmos a meta; assim, seja a nossa Quaresma um itinerário pessoal e comunitário com sentido; o ponto de partida de uma transformação de vida. Em Ano Jubilar da Misericórdia, como o próprio Papa Francisco expressou na Bula do Ano Santo, “a Quaresma deste Ano seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus” (Misericordiae Vultus, 17). Ousemos levantar os olhos e dirigir o nosso coração para Aquele que é fonte permanente da misericórdia; pois só Ele é capaz de erguer a nossa vida. No primeiro dia da Quaresma, a 4.ª feira de Cinzas, ouvimos ecoar nas nossas Igrejas aquela Palavra do Senhor pela boca do Profeta Joel: “Convertei-vos a Mim de todo o coração… Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso”.

Converter, mudar de mente e coração, voltar, é aquilo que o Senhor mais uma vez espera dos seus filhos. Voltar sim, com humilde confiança porque Ele é misericordioso; de novo Ele nos atrai com o Seu amor, uma e outra vez. Voltar não em abstrato nem num enredo disfarçado de manifestações piedosas ou espirituais vazias, mas sim com gestos e obras concretas. De todo o coração significa de verdade e por inteiro.

Para melhor viver este ano de conversão ao amor e imitarmos o Pai misericordioso, o Papa sugere que exercitemos as Obras de Misericórdia e fez questão de as enunciar uma por uma. Diz ele: “É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos” (MV15).

Os Evangelhos e a tradição da Igreja, propõem-nos para este tempo três gestos: a oração, a esmola e o jejum. Herdeiros de um pensamento mundano que nos faz voltar demasiado para nós mesmos, haja coragem de sair um pouco mais de nós em direção a Deus e aos outros; porque não sair da alienação existencial em que andamos submersos? A oração ajuda-nos a repensar a nossa relação com Deus. O assunto mais sério da vida do homem é a sua relação com Deus e a sua realização plena define-se pela intimidade que tem com Ele. Aceitemos esta aventura de entrar no deserto da oração e da escuta. A oração faz-nos amar mais a Deus e experimentar a sua misericordiosa presença, alimenta a nossa vida interior, faz-nos fixar no essencial, leva-nos a viver em contínua gratidão diante de tanta ternura e beleza e desperta ainda em nós empatia para com aqueles que mais sofrem levando-nos a ganhar novo ânimo para os ajudar.

A esmola, que não seja a entrega das nossas sobras aos irmãos mais pobres, mas efetivamente seja fruto de uma partilha e resultado da ternura que brota do nosso coração. A caridade para com o próximo, a atenção aos esquecidos e marginalizados é uma excelente oportunidade de encontro com Cristo, pois a carne de Cristo é o pobre e sofredor.

O jejum, nos nossos dias, precisa ser redescoberto, porque não se trata de uma mera privação de alimentos e outras coisas. É claro que ele tem uma contrapartida: o que deixamos de tomar reverter-se em favor dos outros; ele é um exercício de alto valor espiritual e constitui um caminho de libertação, uma via de ascese. Quem não consegue privar-se voluntariamente de algo, realmente está preso e dependente, não é “dono” de si mesmo e não arrisca orientar a sua vida em direção a um bem maior. Somos o que somos graças a essa matriz de relações que nos conecta connosco mesmos, com os outros, com o Outro e com as criaturas. A alegria da chegada à Páscoa será fruto da caminhada que empreendermos com determinação.

Como de costume, somos convidados a fazer uma renúncia coletiva para os mais necessitados. A nossa renúncia quaresmal do ano passado, destinada a ajudar as famílias mais pobres do Concelho do Paúl, teve como resultado 407.077$00. Quero agradecer àquelas pessoas e paróquias que manifestaram a sua grande generosidade nesta ocasião. A renúncia quaresmal de 2016 é para ajudar aqueles, sobretudo de São Nicolau e da Boavista que, com a passagem do Furacão Fred, sofreram grandes danos materiais. Em algumas povoações ainda há famílias cujas casas se encontram sem telhados e que perderam outros bens. Nessas ilhas, também algumas das nossas igrejas e capelas ficaram bastante danificadas a ponto de ainda hoje os fiéis não puderem celebrar nessas igrejas. É o caso da Capela da Povoação Velha na Boa Vista, do Carriçal em São Nicolau, entre outras. Certamente a nossa solidariedade para com esses irmãos far-se-á sentir no nosso gesto de partilha.

Votos de uma Santa Quaresma para todos e sejamos capazes de nos apoiar uns aos outros em ordem a uma autêntica conversão rumo à Páscoa; “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”, dizia S. Isabel da Trindade. Maria, Mãe de Misericórdia, nos acompanhe e nos ajude a contemplar na Cruz, o rosto glorioso de Cristo que desperta esperança e vida!

 

Ildo Fortes | Bispo de Mindelo | Mensagem pela quaresma de 2016

 

 

 

 

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