JÚLIO BARROS ANDRADE: Cabo-verdura!!!

. Publicado em Opinião

Num hospital não há melhores serviços. Todos os serviços devem funcionar bem e em complementaridade tendo em consideração os recursos humanos, materiais e financeiros disponibilizados pela sociedade

 



Li e não quis acreditar sobre a gala “Eu Posso Ajudar”, organizada pela Direção do Hospital Dr. Agostinho Neto, neste fim-de-semana, durante a qual foram premiados os “melhores Serviços do Hospital Dr. Agostinho Neto”.


Eis um estrato do artigo que saiu num jornal electrónico do nosso país:


“A par do Laboratório Elisa e do Centro de Diálise, que receberam a primeira e segunda posições, respectivamente, outros dois serviço daquela instituição foram premiados: o Gabinete de Qualidade, Humanização e Segurança e o Serviço de Psiquiatria, considerados, terceiro e quarto melhores serviços do HAN, em 2015”.


Tenho dificuldades em compreender o significado dos melhores serviços de um hospital. Até posso aceitar que uma direção possa considerar que determinado serviço funcionou bem no nosso contexto, mas premiar os melhores serviços de um hospital é uma Cabo-verdura.


Quais os critérios que devo propor para comparar alho com bugalho? Como posso comparar Serviço de Urgência com laboratório ELISA? Que parâmetros utilizo para comparar Gabinete de Qualidade, Humanização e Segurança com o Serviço de Ginecologia e Obstetrícia? Fico aguardando a resposta.


Se há os melhores é provável que haja os piores. Quais foram os piores serviços? O que foi feito em relação aos piores serviços dos anos anteriores para que pudessem dar um salto qualitativo? Também ficarei aguardando a resposta.


Se considerarmos a lógica dos melhores e dos piores, embora seja pura ignorância, pelo relevante papel que o Hospital Central da Praia tem no contexto nacional na prestação de cuidados médicos diferenciados tenho de atribuir uma nota negativa a atual Direção por ter negligenciado e relegando serviços estruturantes como Banco de Urgência, Bloco Operatório, Medicina Interna, Orto-traumatologia, Pediatria, Ginecologia-obstetrícia, Cirurgia Geral, Anestesia, de entre outros para “fora dos melhores serviços”.


Num hospital não há melhores serviços. Todos os serviços devem funcionar bem e em complementaridade tendo em consideração os recursos humanos, materiais e financeiros disponibilizados pela sociedade. Os serviços são complementares e uma técnica, como hemodiálise, não funciona sem o suporte da cirurgia, do serviço de laboratório, da medicina interna, da cardiologia pois, em regra, os hospitais tratam doentes e não doença.


Acho importante e louvável a organização de galas como forma de angariar recursos financeiros da sociedade civil para investir em áreas com maiores dificuldades no nosso Hospital, mas sem Cabo-verdura.

 


Júlio Barros Andrade | texto retirado do facebook | escrito com a antiga grafia

 

 

 

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